A luta lésbica é a luta do feminismo!

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A necessidade de se posicionar e afirmar em uma sociedade patriarcal, misógina e falocêntrica é parte da agenda feminista desde que as primeiras mulheres se negaram a cumprir o papel determinado para elas em razão do sexo com o qual nasceram, o feminino.

Para uma lésbica, a necessidade de ser posicionar e afirmar ganha um peso maior, porque além de terem nascido no sexo que é oprimido desde o primeiro choro, elas rompem com o ideal heteronormativo das relações construídas em torno da figura masculina.

As lésbicas vão de encontro com a estrutura que determina que o destino biológico das mulheres é nascer, ser filha, em seguida esposa, mãe e cuidadora, porque as mulheres que amam/desejam outras mulheres não pautam seus afetos de acordo com essa determinação limitadora.

Tanto que a perseguição às lésbicas é documentada desde os primeiros registros históricos, a exemplo das poesias de Safo que foram queimadas pelos monges copistas em 1073 por serem consideradas “obscenas”.

Em 1969, A escritora e teórica Betty Friedan, em um discurso para a National Organization for Women – Organização Nacional para as mulheres (NOW), a qual fundou, chamou as integrantes lésbicas da organização de Lavander Menace – Ameaça Lavanda, afirmando que elas manchavam a reputação do grupo, afastavam outras mulheres e desviavam a atenção de pautas mais importantes na luta pela igualdade.

Com essa situação, as feministas lésbicas decidiram fundar seus próprios grupos, para provar a importância de suas lutas e transformar o constrangimento em orgulho.

Dentre os grupos que nasceram desse rompimento está o que se denominou de Lavander Menace, que em 1970 interrompeu o Second Congress to Unite Women (organizado pelo NOW) apagando as luzes do local, tomando os microfones e distribuindo o manifesto “The Women Identified Women” que é considerado um marco no feminismo radical e o início do feminismo lésbico, ao afirmar, dentre outras coisas, que as lésbicas estavam na vanguarda da luta pela nossa libertação, tendo em vista que sua identificação com outras mulheres desafiava as definições de identidade feminina em termos de parceiros sexuais masculinos.

Em 1975, Adrienne Rich, escreveu

 “Antes que existisse ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lésbicas. Mulheres que amavam outras mulheres, que recusavam o comportamento esperado delas, que recusavam definir-se em relação aos homens. Aquelas mulheres, nossas antepassadas, milhares cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas, caluniadas em escritos religiosos, e mais tarde “científicos”,  retratadas na arte e na literatura como mulheres bizarras, amorais, destrutivas, decadentes. Por um longo tempo as lésbicas foram a personificação do mal feminino.”

Ser lésbica é mais que ser uma mulher que ama/deseja outras mulheres, é também priorizar todas nós e por esta razão ser alvo das mais levianas acusações, das mais cruéis perseguições, porque o instinto de uma mulher lésbica é defender, cuidar, lutar, se orgulhar e levantar as bandeiras de proteção à outras mulheres, essa atitude fere com tudo que o patriarcado espera de nós em sociedade.

Por isso o ataque, a censura, as mentiras e manipulações sempre tentam primeiro derrubar os grupos que priorizam mulheres, que colocam nas ruas Caminhadas Lésbicas e eventos exclusivamente para nós, porque priorizar meninas e mulheres é dizer não ao que o patriarcado impõe, é ir contra uma estrutura que vulgariza, desumaniza, estupra e violenta nossos corpos, pensamentos, desejos, sonhos e conquistas.

O Grupo Lésbico-Feminista foi fundado em São Paulo no ano de 1979, por mulheres que primeiro integraram o Grupo Somos de Afirmação Homossexual, que ao perceberem que as pautas lésbicas eram sempre invisibilizadas diante as pautas gays decidiram se fortalecer em uma coletiva própria. As que restaram desse grupo, que se desfez em meados de 1981, lançaram a cartilha ChanaComChana para arrecadar fundos, tendo sido expulsas do Ferros Bar que proibiu a sua venda, o que culminou no levante que ocorreu em 19/08/1983, data que desde então marca o Dia do Orgulho Lésbico.

O dia 29 de agosto, dia da Visibilidade Lésbica, foi proposto em 1996, no SENALE (hoje SENALESBI), com a intenção de registrar a existência lésbica, como também a necessidade de que o debate de lésbicas para lésbicas, da mesma forma a voz das lésbicas na sociedade civil fosse pontuada como fundamental para que mulheres desde sempre marginalizadas não fossem apagadas da história.

Por isso a GARRa FEMINISTA, fundada em Belo Horizonte, no ano de 2014, desde o seu nascimento tem como um dos seus principais objetivos não deixar que o Orgulho e a Visibilidade Lésbica sejam tratadas como pautas menores, uma vez que como Feministas Radicais o nosso foco é também a proteção, cuidado, segurança e educação das mulheres, para que possam entender sua importância na sociedade, tanto coletiva quanto individualmente.

Apesar de todos os ataques sofridos ao longo de 5 anos de estrada, é com força, determinação e desejo de libertar todas das opressões sofridas, que a GARRa, junto a outros coletivos, colocará nas ruas a 15ª Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de Belo Horizonte, no dia 30/08/2019, porque sabemos que não há nada mais forte que uma mulher livre para amar, caminhar, falar, se posicionar e lutar.

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8 de março – dia das mulheres trabalhadoras e a luta do feminismo radical.

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“Mulheres Unidas” – poster do coletivo See Red

Hoje é comemorado o dia de luta das mulheres trabalhadoras, um dia para se lembrar de todas que construíram a luta feminista e contribuíram para a melhora dos direitos trabalhistas, mas também um dia para ir às ruas e continuar a luta que essas mulheres começaram. Ir para as ruas em atos é mostrar que, durante todo o ano, estaremos presentes para barrar e resistir aos ataques da direita, que atingem as mulheres seja em sua aposentadoria, seja pela intensificação da divisão sexual do trabalho. A divisão sexual do trabalho separa e estabelece uma hierarquia entre homens e mulheres, intensificando a diferença social nos postos de trabalho (trabalho “de mulher e de homem”) e dando valores monetários e sociais maiores para o trabalho dito masculino,  precarizando, assim, os postos de trabalhos ocupados por mulheres.

Estamos há dois meses de um governo de direita que se utiliza de uma batalha moral identitária para atacar e desmoralizar a esquerda,  e, ao mesmo tempo, apresenta planos de precarização do trabalho, que irão atingir com mais força as mulheres trabalhadoras. As mulheres são o maior contingente de desempregados no país, motivo pelo qual elas procuram trabalhos informais e perigosos, sejam aliciadas para a prostituição e sofram diversos tipos de violência e estigmatização. Além disso, as mulheres são as responsáveis pelo cuidado materno e do lar, tendo uma maior carga de trabalho e stress mental que os homens.  Para combater esse governo, precisamos estar organizadas e preparadas para enfrentar cada ataque direcionado a nós, precisamos entender como a divisão sexual do trabalho se evidencia nessa conjuntura.

O feminismo radical nasceu dentro da esquerda no final da década de 60 e não há como fazê-lo de outra maneira, a militância tem de ser feita pela esquerda e com todas as dificuldades que apresenta, não há atalhos na luta, é através da formação de base e da prática feminista que conseguiremos alcançar nossos objetivos.  A prática é o critério da verdade, é atuando no dia a dia que saberemos quais são as lutas e os anseios das mulheres brasileiras e conseguiremos definir com clareza nossas batalhas e estratégias. As feministas radicais do Brasil precisam se organizar e fazer a luta coletiva e, colocar as mulheres no centro da luta, é fundamental para o avanço da esquerda no país.

Neste 8 de março de 2019 a GARRa sai mais uma vez às ruas em marcha, para pedir justiça pelas vítimas de Brumadinho, atingidas pelas mãos da criminosa Vale e manifestar-se contra a reforma da previdência do governo Bolsonaro que só irá ampliar as desigualdades entre homens e mulheres na sociedade brasileira.  Lutamos também pela legalização do aborto e pela sua implementação de forma gratuita e segura em todo o SUS. O aborto ilegal segue sendo uma das principais causas de morte materna, uma evidência do controle patriarcal dos nossos corpos e a imposição da maternidade e da exploração da nossa capacidade reprodutiva.  Saímos em marcha para denunciar esse governo conservador e subserviente às pautas evangélicas, que declarou guerra às mulheres, querendo nos tomar o pouco que conquistamos!

Chamamos todas as feministas radicais do Brasil para juntarem-se conosco nessa luta, por um projeto feminista radical para todas as mulheres!

Nota de solidariedade e apoio às feministas radicais da Argentina.

Nosotras mujeres de la Grupa Ação e Resistência Radical Feminista demostramos nuestra solidaridad y apoyo a las compañeras de la agrupación F.R.I.A (Feministas Radicales Independientes de Argentina) y de la agrupación RadAr feminisnta por los recientes ataques sufridos en el 15 de febrero durante una asamblea para organizar el paro mundial del 8 de marzo, organizada por el movimiento Ni Una a Menos.

Hubo censura a las compañeras, a quienes impidieron de hablar sobre el abolicionismo de la prostitución durante la asamblea, lo que hiere su libertad de expresión y hace imposible el debate. También ocurrieron agresiones por parte de una persona trans que estaba presente en la asamblea.

Estas acciones, la censura y el impedimiento de la participación en espacios de construcción feminista no es algo nuevo para nosotras, feministas radicales brasileñas, tampoco para las feministas radicales alrededor del mundo. Nosotras de GARRa hemos sufrido muchos ataques en espacios dichos feministas en estos 5 años de existencia.

El feminismo se ha rechazado a discutir los asuntos más importantes para la vida de las mujeres, y las voces que van en contra al feminismo mainstream son silenciadas y depreciadas. Pero las feministas radicales y las feministas abolicionistas no serán calladas: seguiremos hablando de la relación íntima entre prostitución y la trata de mujeres y niños, y de cómo los proxenetas están infiltrados en el movimiento feminista.

Hay que ocupar siempre todos los espacios y luchar para que las voces de las mujeres que en realidad luchan por la liberación de todas las mujeres, y que hacen el verdadero feminismo, el feminismo no modificado, sean escuchadas.

No nos callaremos!


 

Nós mulheres da Grupa Ação e Resistência Radical Feminista expressamos nossa solidariedade e apoio às companheiras da coletiva FRIA (Feministas radicais independentes da Argentina) e da coletiva Radar Feminista pelos recentes ataques sofridos em 15 de fevereiro, durante a assembléia da organização  Ni una a Menos. As companheiras foram censuradas e impedidas de falar sobre o abolicionismo da prostituição durante a assembléia, o que fere sua liberdade de expressão e impossibilita o debate. Além disso, sofreram agressão física de uma pessoa trans presente na reunião.

Esse tipo de ação, a censura e o impedimento de participação em espaços de construção feminista, não é novidade para nós, feministas radicais brasileiras e nem para as feministas radicais que estão espalhadas pelo mundo. A GARRa por várias vezes, durante seus quase 5 anos de existência, tem sofrido ataques em espaços que se dizem feministas.

O feminismo tem se recusado a debater os assuntos mais importantes para a vida das mulheres, como a questão da prostituição, e as vozes que não estão de acordo com o feminismo mainstream são silenciadas e vilipendiadas. Mas as feministas radicais e as feministas abolicionistas não serão caladas: continuaremos a falar sobre a relação íntima entre prostituição e tráfico de mulheres e crianças, e como os cafetões estão infiltrados no movimento feminista.

Devemos sempre ocupar todos os espaços e lutar para que as vozes das mulheres que realmente lutam pela libertação de todas as mulheres, e que fazem o verdadeiro feminismo, o feminismo não modificado, sejam ouvidas!

Não nos calaremos!

Separatismo: Quando e por quanto tempo?

Tradução de parte do capítulo 14 retirado do livro “Love and Politics – Radical feminist and Lesbian Theory” de Carol Anne Douglas por GARRa feminista

ARQUIVO EM PDF. 

A discussão dos objetivos, estratégias e táticas feministas deve lidar com a diferença entre aquelas que veem um movimento autônomo como uma estratégia, mas que favorecem a eventual união com os homens – e aquelas que veem o separatismo como objetivo.

Todas as feministas radicais e lésbicas favorecem algum grau de separatismo. Todas acreditam que grupos independentes e exclusivos para mulheres são necessários. As questões levantadas pelas separatistas lésbicas diz respeito a necessidade de separar-se dos homens em todas as áreas de convívio, se o separatismo é um objetivo permanente e, em que medida, as lésbicas escolherão trabalhar ou viver separadas de mulheres que se relacionam com homens.

Separatismo temporário

O grupo feminista radical Redstockings via como uma tática temporária a separação entre mulheres e homens. Barbara Leon escreveu um artigo intitulado “Separate to integrate” (“Separar para integrar”), no qual afirmou que na década de 1960, as feministas radicais assumiram que estivessem formando grupos políticos exclusivos para mulheres apenas para exigir que elas fossem inseridas na sociedade. Leon via mulheres que preferiam trabalhar e socializar apenas com as mulheres como um elemento reacionário.

Em uma irônica volta aos velhos tempos dos clubes de mulheres, muitos grupos femininos começaram a ser vistos como fins em si mesmos – lugares para se socializar, fazer amigas e de crescimento pessoal.

Essa visão parece não apenas desconsiderar os interesses das lésbicas, mas também minimizar a necessidade de amizade sentida por todas as mulheres que estão mudando suas vidas para se tornarem feministas radicais.

Leon expande a posição do Redstockings que mulheres não devem formar grupos exclusivos femininos, exceto quando estão trabalhando em questões específicas relativas às mulheres.

A formação de grupos exclusivamente femininos em questões que não sejam os direitos das mulheres e a sua libertação é reacionária. Ele se enquadra nos projetos da supremacia masculina para manter as mulheres segregadas, excluídas e “em seu lugar”. Somente se o propósito declarado de um grupo de mulheres for lutar contra o rebaixamento para uma posição e um status separados, ou seja, para lutar pela libertação das mulheres, só então um grupo separatista adquire um propósito revolucionário e não-reacionário.

Esse posicionamento aponta os perigos de ser do gueto, mas não reconhece que as mulheres que se juntam para trabalhar na resolução de suas pautas talvez desejem continuar trabalhando em conjunto – e podem ser mais eficazes se elas estiverem juntas – em outros tópicos.

É verdade que, na década de 1960, as feministas radicais visavam a integração das mulheres e dos homens como a solução. Até mesmo a militante Ti-Grace Atkinson assumiu que, eventualmente, mulheres e homens provavelmente seriam complementares, embora ela tenha qualificado esse ponto.

Uma separatista, tecnicamente, é alguém que defende um estado separado para um grupo particular de pessoas. Eu nunca fiz isso – ainda.

Atkinson criticou fortemente o “nacionalismo” feminino como tático e irrealista, e disse que o nacionalismo prejudicava o movimento negro.

Os limites entre objetivos e táticas nem sempre são claros. O objetivo da mulher pode ser a tática de outra mulher. Uma comunidade exclusiva de mulheres, por exemplo, pode ser um objetivo para algumas mulheres e uma tática para outras. Ou pode ser um objetivo de longo alcance para algumas e um objetivo de curto alcance para outras. Embora essas mulheres possam trabalhar juntas, pode haver conflito se uma mulher valorizar um projeto como um fim em si mesmo, de modo que outra veja mais como um meio para um fim.

Perspectiva lésbica sobre o separatismo

A declaração separatista lésbica mais antiga pode ter vindo de Spectre, em 1971 e 1972, da cidade de Ann arbor no Michigan, que publicava o jornal. Em Washigton, com base em DC, as Furies começaram pouco depois, e publicaram o jornal por conta própria.

A questão do separatismo lésbico tem sido discutida quase desde que a ideia de uma política feminista lésbica foi formulada pela primeira vez. Algumas lésbicas usaram o termo “separatismo” para significar a maior separação possível dos homens; outras também o usaram para significar separatismo de mulheres que não são lésbicas. Enquanto umas acreditam que é preferível evitar os problemas de atitude anti-lésbica nas feministas heterossexuais trabalhando apenas com lésbicas, outras sentiram que tinham que deixar o movimento feminista e marcar um novo movimento próprio.

Ginny Berson, membra do Furies, escreveu:

As lésbicas devem sair do movimento das mulheres heterossexuais e formar seu próprio movimento para serem levadas a sério, para impedir que as mulheres nos oprimam e para forçar mulheres heterossexuais a lidarem com seu próprio lesbianismo.

No entanto, as feministas lésbicas muitas vezes têm sido ambivalentes quanto ao separatismo. Em “Take a Lesbian to Lunch“, Rita Mae Brown escreveu:

Este é um apelo ao movimento separatista de lésbicas? Sim e não. Não, porque não quero ficar separada de nenhuma mulher… Sim, porque até que as mulheres heterossexuais tratem lésbicas como seres humanos…Não tenho opção…

Brown expressou ambivalência não só sobre o separatismo lésbico como uma tática, mas também sobre o separatismo dos homens.

O separatismo é o que o homem rico e branco quer: homem vs. mulher;  negro vs. branco; gay vs. hétero ; pobre vs. rico. Eu não quero me separar de ninguém – isso apenas mantém O Grande Homem em cima de todos nós. Mas eu não posso trabalhar com pessoas que me degradam, não lidam com comportamentos que são destrutivos para mim e que não compartilham seus privilégios. O que eu quero é o separatismo. Só podemos alcançar mudanças reformistas para o nosso subgrupo se permanecemos separatistas.

No “futuro do separatismo feminino”, um artigo de 19757 em Quest: A Feminist Quarterly, Lucia Valeska, que mais tarde presidiu a National Gay Task Force (agora National Gay and Lesbian Task Force), criticou o separatismo.

Uma das lições mais difíceis para as feministas lésbicas aceitarem é que existem algumas feministas heterossexuais que estão fazendo uma contribuição mais vital para as mulheres do que algumas lésbicas… Houve uma percepção conjunta de que não é a heterossexualidade per se que deve ser conquistada, mas a base ideológica e material de apoio que dá à supremacia masculina… [a] análise feminista lésbica….  não insiste em que todas as mulheres se tornem lésbicas. Escolher um caminho diferente não é admitir a derrota. Na sua forma mais pura, o separatismo não funciona porque você não pode se cortar de todas as fontes de poder e sobreviver… Mas também é perigoso negar a força da análise inicial e se mover do outro jeito – em uma posição anti-separatista.

Lucia Valeska diz que o separatismo ajuda as lésbicas a criar um senso de identidade, mas não é a única tática a ser usada na mudança social. Nem todas as mudanças, ela acredita, podem ser melhoradas através do separatismo. Mesmo que veja o separatismo como uma tática e não como um objetivo, ela vê isso como uma tática de longo prazo.

Para acabar com o separatismo, devemos acabar com suas causas… Independentemente da sua opinião, o separatismo feminino tem um futuro tão longo e viável quanto a supremacia masculina. Esse é um longo caminho à frente.

Algumas lésbicas têm ainda mais críticas contra o separatismo integral, tanto por motivos táticos como com um sentimento de empatia com outras mulheres. Rita Laporte escreveu no início da década de 1970:

Como lésbica, tenho medo especialmente de uma separação entre mulheres heterossexuais e lésbicas. Não só as lésbicas são odiadas e temidas pela maioria das mulheres, mas muitas lésbicas não cedem amor as suas irmãs heterossexuais…

Não consigo ver lésbicas ou mulheres heterossexuais sozinhas, conseguindo a revolução para uma maior humanidade em todas as pessoas.

A escritora lésbica e feminista, Adrienne Rich, também expressou suas preocupações com o separatismo. Em um artigo de 1977 em Sinister Wisdom, ela escreveu:

… Algumas lésbicas se retiraram ou foram forçadas a um enclave não-feminista que rejeita ou denigre mulheres “heterossexuais”.

Para Rich, o termo “separatismo” enfatiza a negação.

Seria mais fácil para alguns se todas as lésbicas pudessem ser rotuladas de “separatistas”, o que implica que nossas políticas e auto-definições procedem primeiro por ódio e rejeição de outros (homens ou mulheres heterossexuais). Seria mais fácil, mas destrutivo para o feminismo e uma negação da nossa complexidade. Nós constantemente nos perguntamos se estamos mais preocupadas com o que estamos dizendo “não” do que com o “sim” que estamos dizendo a nós mesmas e a outras mulheres.

Algumas mulheres negras criticaram o separatismo, tanto como objetivo, como tática. Apesar de existem separatistas lésbicas negras, poucas que são escritoras que se identificam como tal. As exceções são Anna Lee, colaboradora de algumas publicações voltadas para o público lésbico e Vivienne Llouise, que escreveu “Off your backs” que ela está trabalhando para “criar uma nação lésbica autossuficiente”. Anna Lee escreve:

Eu reivindico e afirmo sob tremenda pressão tudo de quem sou é uma lésbica negra separatista. Para dizer isso, coloco-me em conflito com cada um dos grupos do qual eu poderia razoavelmente esperar apoio, proteção e sustento.

Meias dúzias de lésbicas negras contribuíram para a antologia lésbica separatista For Lesbians Only.

Nesse livro, Naomi Little Bear Morena expõe em um ensaio a pressão que lésbicas brancas fazem para que ela assuma um papel que não gostaria.

Olha, eu quero fazer C.R¹ e sair como uma latina e orgulhosa, você sabe, ficar desapontada e irritada com a verdade sobre o macho latino no bairro loco, e eu quero um adesivo e um botton escrito “a mãe natureza é uma lésbica”. Bem, esqueça essa merda. Aqui está o seu roteiro e como se lê, irmã: “mulheres de cor conhecem Karl Marx, mulheres de cor se tornam politicamente corretas, mulheres de cor decidem quem boicotar e chamar de racista na comunidade.

Em uma nota diferente sobre separatismo e etnia, a antologia também inclui um ensaio de Naomi Dykestein, que diz que sua identidade judaica está relacionada com seu separatismo lésbico.

É verdade: separatistas são barulhentas, raivosas, insistentes, intransigentes, irritantes e desagradáveis – nós não nos calamos e não somos “mulheres educadas”. Mas essas “críticas” soam desconfortavelmente familiares – são as mesmas queixas feitas sobre os judeus em geral e a mulher feminina judaica em particular. Não há coincidência, penso eu, considerando a grande porcentagem de separatistas lésbicas que são judias – o que é algo mais que eu tenho que perceber que não é coincidência. Nós viemos de uma herança de separatismo – tem sido uma das principais formas pelas quais meu povo sobreviveu e é uma parte essencial de nossa(s) cultura(s).

Críticas ao separatismo

As mulheres de cor geralmente veem qualquer variante de separatismo – tanto sexual quanto racial – como uma forma de coerção que as obriga a separar ou até mesmo desistir de sua identidade própria. Muitas declararam a vontade de ser e agir enquanto negras, pardas, amarelas, como mulheres ou como lésbicas.

Merle Woo escreve em sua “Letter to Ma” in This Bridge Called My Back

Ser uma feminista amarela significa ser uma ativista da comunidade e humanista. Isso não significa “separatismo”, seja privando-me de relações com não-asiáticos ou homens.

A feminista socialista porto-riquenha Juanita Ramos escreve em Compañeras: Latina Lesbians:

Depois de muitos anos de busca por “O” movimento onde todas as minhas facetas seriam aceitas, eu finalmente percebi que cada um desses movimentos [porto-riquenho, gay, feminista] não poderia, por si só, gerar o tipo de sociedade que asseguraria a eventual eliminação de todas as formas de opressão. Isto acontece porque cada um deles tenta forçar-nos a priorizar questões desta forma e daquela forma, para destacar algumas partes de nossa identidade à custa dos outros. Eu acredito que esses grupos devem interagir uns com os outros.

Em “black feminist statement” a coletiva do Combahee River condena o separatismo lésbico:

Também devemos questionar se o separatismo lésbico é uma análise e estratégia política adequada e progressista, mesmo para aqueles que o praticam, já que nega completamente qualquer fonte de opressão da mulher, com exceção a sexual, ignorando os fatos de classe e de raça.

Em “Across the Kitchen Table: A Sister-To-Sister Dialogue” de Barbara e Beverly Smith, Barbara Smith critica aqueles que praticam o separatismo como sua política única. Um das autoras da declaração do Combahee, ela sugere que o separatismo lésbico completo invoca a rejeição de questões que afetam muitas mulheres e formas de trabalho que poderiam inclui-las em maior número.

Raramente o separatismo está envolvido em promover mudanças políticas reais, de forma que afete as instituições da sociedade de maneira direta. Se você define certas questões do movimento como problemas de mulheres heterossexuais, por exemplo, os direitos reprodutivos e abuso de esterilização, então essas questões políticas/sexuais identificáveis são aquelas com as quais você não irá se preocupar. Percebemos como os separatistas em nossa área, ao invés de fazer organização política, muitas vezes fazem atos desarticulados. Por exemplo, eles podem chegar a uma reunião ou uma série de reuniões, depois seguir em frente… às vezes pensamos separatismo como a política sem uma prática.

Algumas feministas sugeriram que o separatismo lésbico envolve (necessariamente) ignorar raça e classe. Sara Bennet e Joan Gibbs escreveram:

…O separatismo lésbico ignora e relega a um status secundário a opressão de raça e classe, e anula a validade da luta compartilhada por mulheres e homens do terceiro mundo.

No entanto, um grupo separatista de lésbicas, as Furies, produziu o que provavelmente foi o primeiro conjunto de artigos sobre o funcionamento de classe entre feministas e lésbicas, que foram compiladas em “Class and Feminism“, um livro editado por Charlotte Bunch e Nancy Myron.

Cathy Mccandless, em seu ensaio no livreto Top Ranking, critica o separatismo no campo econômico.

Que alternativas econômicas nós fornecemos para as mulheres que realmente desejam cortar suas conexões com os homens ou (muito mais ao ponto, eu acho) com o próprio sistema patriarcal capitalista supremacista masculino branco? Migalhas preciosas… esse é o ponto crucial do verdadeiro separatismo lésbico.

Se o separatismo de alguma forma fosse disponibilizado a todas as mulheres que pudessem querê-lo, não haveria nenhuma objeção? Seria a mudança para o campo a única forma para um possível separatismo?

Mccandless prossegue:

O dinheiro pode lhe oferecer o privilégio da distância. Com o suficiente, é possível nunca mais colocar os olhos em um homem. É um luxo maravilhoso, ter controle sobre quem observar, mas vamos a realidade: para a maioria das mulheres, o dia-a-dia ainda envolve o contato pessoal com os homens, quer gostem ou não.

Ela não parece reconhecer que muitas mulheres fazem sacrifícios econômicos para viver ou trabalhar apenas com mulheres. Certamente, nem todas as separatistas são ricas. Algumas têm como origem a classe trabalhadora. A maioria das que tentam se separar economicamente dos homens deve desistir do privilégio potencial ou real de ganhar um salário alto.

Certamente é verdade que nem todas as mulheres podem se dar ao luxo de ir e viver no campo: muitas têm dependentes para sustentar, mas nem muitas mulheres pobres podem permitir-se tornarem-se ativistas políticas, se elas estiverem sobrecarregadas com uma dupla jornada de trabalho. Isso significa que não se deve ser uma ativista política, porque nem todas as mulheres podem ser? Não é mais apropriado dizer que o que uma mulher quer para si mesma – ativismo, oportunidade de trabalhar na arte, uma vida separada dos homens – ela deveria trabalhar para torná-la possível para outras que também gostariam disso?

As críticas do separatismo nem sempre reconhecem que existem graus de separatismo. Uma mulher pode ser separatista em sua vida pessoal e organizações políticas, mesmo que saiba que não pode sobreviver sem um trabalho que possa levá-la a um contato com homens. Ela ainda pode abster-se de dar qualquer parte de si mesma aos homens.

Em um artigo do Sinister Wisdom de 1981 “What Does Separatism Mean?”, Adrienne Rich debate a história do separatismo e questiona se – ou quando – ele é racista.

Eu me pergunto se talvez a verdadeira dúvida em questão não seja o separatismo em si, mas como, quando e com que tipo de identidade consciente é praticado e até que ponto qualquer ato de separatismo é mais do que um ato de se retirar da diferença daqueles cuja dor optamos por não se envolver.

Todas as feministas radicais são separatistas até certo ponto. Todas nós reconhecemos a importância de fazer pelo menos algum trabalho político independente dos homens. A maioria das lésbicas (dependendo de como definem seu separatismo) são separatistas no sentido de que não dormem ou se envolvem romanticamente com os homens. Entretanto, algumas separatistas levaram o separatismo ao ponto de criticar outras lésbicas por ocasionalmente ver seus pais ou irmãos. Eu suspeito que esse grau de separatismo seja relativamente incomum.

O separatismo que ignora a opressão de mulheres que não são lésbicas ou que rejeita mesmo as lésbicas que querem lidar com as outras opressões que enfrentam (como trabalhadores, pessoas de cor, etc.), claramente poderia ser criticado como imprudente.

Há uma diferença considerável entre dizer: “Não vou trabalhar perto de homens” e dizer que “Mulheres negras não deveriam trabalhar com os homens” – assim como existe diferença entre dizer: “Eu acredito que trabalhar com homens do terceiro mundo é importante” e dizer “ Qualquer mulher que não trabalhar com homens, mesmo que sejam do terceiro mundo, são racistas.”

Por outro lado, pode haver momentos em que é aceitável perguntar-se é moralmente ou politicamente obrigado a trabalhar para certos propósitos em projetos que podem estar indiretamente ligados.

Adrienne Rich questiona,

Como a decisão de trabalhar contra o Klan afetará a política e estratégia separatista lésbica? Essas mulheres têm uma escolha, como jovens lésbicas brancas na terra do sul, para se juntar ou não participar da atividade anti-Klan?

A urgência em uma situação pode determinar quando uma mulher decide alternar suas concepções políticas. Uma feminista poderia recusar ajuda a um homem que precisasse se esconder de pessoas que pudessem matá-lo por causa de sua raça ou etnia? Certamente que não.

No entanto, como Rich ressalta, o separatismo não foi criado simplesmente como uma política negativa, mas como uma afirmação do próprio grupo (oprimido).

Um ato do separatismo, de desconjuntar, também pode ser um ato de conexão. Um espaço exclusivamente feminino não é definível apenas como um espaço do qual todos os machos são excluídos.

O separatismo possui cunho radical apenas se o separatista pertence ao grupo oprimido. Homens brancos separatistas não poderiam formar um movimento progressista.

Muitos afro-americanos se definiram como nacionalistas negros (ou separatistas). Foi de onde as lésbicas tiveram a ideia. Embora seja claro que algumas feministas negras, insatisfeitas em trabalhar com grupos feministas e negros, decidiram formar alguns grupos que incluíssem apenas mulheres negras ou de origem pobre, não se definiam como separatistas. Muitas vezes, elas também trabalhavam em outros grupos que incluem mulheres brancas e / ou homens negros, e até mesmo homens brancos progressistas também.

Bell Hooks, uma feminista negra, critica todos os grupos de feminismo negro como separatista.

Algumas mulheres negras que tinham interesse na libertação das mulheres responderam ao racismo de mulheres brancas formando grupos separados de “feministas negras”. A resposta foi anti-revolucionária… Em vez de mulheres negras revidando a tentativa de classificá-las como um Outro, um elemento desconhecido e insondável, elas agiram como se fossem o Outro.

No entanto, a maioria das feministas negras apoia ou pertence a tais grupos e acredita que são progressistas e necessários.

Muitas das críticas ao separatismo lésbico integral mencionado nos anos 80 são semelhantes às críticas levantadas anteriormente por outras feministas radicais, como Brooke, por outas ex-separatistas, como Rita Mae Brown e aquelas que veem o separatismo como uma estratégia válida, mas parcial, como Lucia Valeska. Embora essas críticas anteriores não tenham sido focadas em raça, elas apontaram que a política separatista lésbica tinha poucas chances de atingir e organizar um movimento de libertação de mulheres.

As críticas ao separatismo às vezes servem como armadilhas: algumas feministas (incluindo lésbicas) acusam aquelas que não concordam com seu posicionamento sobre uma tática específica, de serem “separatistas” (e, portanto, supostamente obstrucionistas, na melhor das hipóteses, e racistas na pior). Às vezes, uma lésbica pode até criticar uma feminista heterossexual como “separatista” por querer que um evento seja só para mulheres, enquanto a lésbica, não.

AS TAREFAS DO FEMINISMO RADICAL BRASILEIRO APÓS O GOLPE

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As feministas radicais brasileiras têm tomado diferentes posicionamentos, e partido de diferentes entendimentos em relação aos processos políticos que temos vivido em nosso país. Algumas encontram-se ainda hoje reticentes em admitir que vivemos um golpe. Outras, demasiadamente influenciadas pelos discursos petistas, aceitam que foi um golpe mas concentram suas esperanças na ilusão de um novo governo de conciliação de classes liderado por Lula em 2018. Nós da GARRa Feminista buscamos com este texto ajudar a avançar na unidade entre as feministas radicais através da crítica, pois entendemos que, neste momento, é crucial elaborar consensos que nos permitam construir uma agenda conjunta de lutas e superar a fragmentação que tem fragilizado nosso campo, impossibilitando a construção de um projeto feminista radical para o Brasil. A análise que segue é o fruto de discussões que realizamos ao longo de cerca de dois anos, e que compartilhamos agora:

1 Precisamos primeiramente reconhecer que passamos por um golpe, e que esse golpe não foi apenas contra uma governante, um governo ou um partido. Foi um golpe contra a classe trabalhadora, como se revelou posteriormente com a agenda de cortes e reformas, e foi um golpe contra a classe das mulheres. Um golpe, ainda que um golpe parlamentar – ou golpe branco, como foi chamado por alguns – difere em muito de um golpe militar, mas não deixa de ser um golpe todavia, e também significa uma ruptura democrática com sérias implicações para populações exploradas e para os movimentos sociais. Deixemos de lado a discussão idealista sobre o que é ou não legítimo, que foi feita de maneira leviana por alguns partidos, ao se recusarem a chamar o governo Temer de ilegítimo, por considerar que os governos anteriores também o seriam por não representar verdadeiramente os interesses do povo. Consideremos a realidade de uma democracia capitalista: o que é legítimo é nada mais que o que foi legitimado. O processo eleitoral é o que legitima um governo e confere a este o direito de formular e aplicar políticas. Enquanto feministas radicais, não defendemos de nenhuma forma a via reformista, nem entendemos que é pela via eleitoral que a revolução que desejamos virá, mas entendemos que uma ruptura nesses processos de legitimação provocada pelos setores da direita, que representam as burguesias nacional e internacional, têm sérios impactos para o povo, e que as lutadoras e os lutadores do povo ficam enfraquecidos em sua capacidade de influenciar decisões e obter vitórias nas lutas pontuais quando não há garantia sequer que os próprios processos decisórios do estado serão cumpridos. Nesse sentido, reivindicar que foi sim um golpe assume uma importância política fundamental. Precisamos deixar registrado na história que o que vivemos foi e é um golpe, e construir as nossas lutas a partir disso daqui para frente.

2 Foi um golpe patriarcal. Não (só) por ter deposto uma presidenta mulher, mas por terem se colocado no poder setores políticos conservadores e supremacistas masculinos, ligados a organizações patriarcais como as igrejas. Verificamos isso pela própria agenda do golpe, de desmonte de conquistas feministas como a aposentadoria que reconhece a dupla jornada feminina decorrente da divisão sexual do trabalho, as “reformas” educacionais, o Estatuto da Família voltando a tramitar e a ameaça, agora mais forte, do risco Estatuto do Nascituro ser aprovado no jogo político entre setores diversos da direita, em que os direitos das mulheres viram moeda de troca. A precarização do trabalho e o aumento da informalidade afetam gravemente a condição das mulheres brasileiras, e somado à dificultação do acesso às políticas de assistência e previdência, resultam no aumento da população feminina em situação de prostituição e de rua, e o encarceramento das mulheres. Vimos também, com muito desgosto, o aspecto patriarcal do golpe revelado numa nova ascensão do primeiro-damismo nas figuras de Marcela Temer e Bia Dória, esposa do infame ex-prefeito de São Paulo, e mundialmente de Melania Trump.

3 Mais um ato do ataque dos setores da direita foi o julgamento do ex-presidente Lula e sua prisão. A forma com que todo o processo ocorreu, o tempo recorde de julgamento até a decisão do Supremo Tribunal Federal, com uma ameaça velada do general da ativa do exército, mostra um claro interesse em mantê-lo preso por sua possibilidade real de ser vencedor das eleições de 2018. Se há de fato uma culpa de Lula pelo que está sendo acusado, que se faça por um processo da maneira correta, com todas as instâncias, no tempo necessário e que as provas sejam apresentadas de maneira contundentes. E, assim como na questão do golpe, a parcialidade descarada com que o plano de prisão foi executado constitui uma ameaça contra os projetos da esquerda. A burguesia deixa claro que não está mais interessada na conciliação representada (e efetivada por mais de uma década) pela figura do ex-presidente, e que está determinada a eliminar qualquer oposição a seus interesses.

4 Não nos esquecemos, no entanto, dos erros graves dos governos PT. O apaziguamento dos movimentos sociais, a lei antiterrorismo, e a política econômica de juros elevados, que incorreu na dívida pública, estão agora sendo utilizados pelo governo da direita contra o povo, mas as raízes do que agora está sendo usado a atacar o povo surge da aliança do PT com setores da burguesia. Entendemos que os governos PT foram bem sucedidos em garantir avanços para a classe trabalhadora em um momento diferente do capitalismo, de crescimento e não de crise, que a escolha foi por uma política de conciliação de classes, que buscava aliar os interesses da burguesia e da classe trabalhadora, e que esta política não mais será possível daqui para frente. Não há saída fácil para esta crise, nem para a classe trabalhadora nem para a classe das mulheres. E muitas das dificuldades que enfrentamos agora está diretamente relacionada ao enfraquecimento da esquerda que ocorreu durante os governos PT.

5 A direita brasileira está fragmentada. Por um lado, isso fortalece pequenos grupos de extrema direita (neonazistas, fascistas, a “alt-right”), que se articulam mais e ficam mais ousados. Os recentes ataques com armas de fogo contra caravanas e acampamentos da esquerda mostram que esses grupos estão dispostos a ações mais violentas.

6 É preciso agora construir o novo projeto político de esquerda para o Brasil sobre os escombros do velho projeto político, e as feministas radicais não devem se ausentar dessa tarefa. Ainda que sejamos poucas em número, e que nossas organizações ainda não tenham atingido o estado que desejamos, não podemos nos refugiar no esquerdismo e no sectarismo, e formular políticas que nos pareçam moralmente corretas, mas sejam inaplicáveis, e nem formulá-las no isolamento, com base no idealismo. Precisamos estar em constante diálogo com outros movimentos, sendo influenciadas e também influenciando.

7 Um dos campos dessa disputa da direita é justamente o feminismo. Precisamos construir um feminismo radical, inequivocamente de esquerda, massivo, popular. A direita liberal avança, neste momento, nas chamadas “políticas de igualdade” e num projeto de capitalismo da diversidade e da inclusão. Nós, enquanto feministas radicais, rejeitamos as abordagens da igualdade, da diversidade e da inclusão, que têm sido terreno fértil para a desestruturação do feminismo a partir da sua inclusão no estado e no mercado. Somos incontestavelmente pela libertação das mulheres, e não aceitamos nada menos que isso.

8 Nós precisamos lembrar que o feminismo radical sempre será feito por mulheres e para mulheres. Entendemos que há muitas companheiras em organizações mistas e que há companheiros homens que entendem a importância do movimento feminista centrado em mulheres, mas precisamos também compreender que as organizações mistas não priorizam a luta das mulheres. No contexto do 1º de maio, o dia das trabalhadoras e trabalhadores, percebemos o esquecimento da divisão sexual do trabalho pelas organizações de esquerdas, com uma recusa da maioria em fazer o debate sobre o trabalho das mulheres ‘donas de casa’, que continua sendo um trabalho não assalariado e tratado como “apêndice do trabalho assalariado”, mas que é o resultado direto da opressão da classe das mulheres pela classe dos homens. É hora da esquerda efetivamente fazer o debate com o reconhecimento de que os homens trabalhadores também utilizam o trabalho doméstico não remunerado das mulheres para o benefício da classe masculina.

9 Precisamos entender que não há solução de curto prazo, nem para as mulheres nem para o povo brasileiro. Não tem acordão que nos salve. As pequenas conquistas garantidas pela via do ativismo não são mais uma possibilidade para os direitos das mulheres e nem voltarão a ser. Assim como não é possível um novo pacto social entre burguesia e proletariado, um pacto entre as classes dos homens e das mulheres não está em nosso horizonte. Não estamos vivendo em uma época progressista em relação a direitos humanos, pois é necessário intensificar a exploração das mulheres, inclusive a exploração reprodutiva, para garantir o lucro. É necessária uma militância organizada, vontade e coragem para massificar o movimento e mudar a correlação de forças, para retomar a luta em busca de vitórias e não mais apenas contra perdas. Diante de tudo que foi aqui exposto, embora nossa análise compreenda o papel desempenhado pela prisão de Lula no contexto de ataques contra a esquerda, não podemos fazer da exigência por sua liberdade a nossa máxima prioridade. Entendemos que não podemos perder de vista o caráter fundamentalmente patriarcal das ofensivas da direita e que precisamos sempre ter as mulheres no centro de nossa luta. As mulheres serão sempre a nossa prioridade, mesmo quando – ou principalmente quando – são esquecidas por outros setores da esquerda.

10 O cenário de ataques constantes e de declínio das conquistas traz um desânimo, uma desesperança e um cansaço que atuam para nos afastar das batalhas. Com as vitórias distantes no horizonte, precisamos recuperar a alegria na luta, em nos encontrarmos nas ruas, em estarmos juntas. Construir uma militância que dure o tempo necessário para massificar o movimento e mudar a correlação de forças.

À luta, companheiras! Por um projeto feminista e radical para o Brasil e para o mundo!

 

A criação do patriarcado (parte) – Gerda Lerner

Original: Gerda Lerner – The Creation of Patriarchy

Arquivo em PDF: A criação do patriarcado – Gerda Lener (1)

Capítulo 11 – A criação do patriarcado.

O patriarcado é uma criação histórica formada por homens e mulheres em um processo que durou cerca de 2500 anos para ser completado. Na sua forma inicial o patriarcado apareceu como um estado arcaico. A unidade básica de organização foi a família patriarcal, que expressaram e geram constantemente suas regras e valores. Nós vimos como definições integrais de gênero afetaram a formação do estado. Vamos revisar brevemente como o gênero foi criado, definido e estabelecido.

O papel e comportamento considerado apropriado para os sexos foram expressados em valores, costumes, leis e papéis sociais. Eles além disso, e muito importante, foram expressados em metáforas, que se tornaram parte da construção cultural e do sistema explicativo.

A sexualidade da mulher, consistindo de sua capacidades sexuais, reprodutivas e seus serviços foi transformado em mercadoria antes mesmo na criação da civilização ocidental. O desenvolvimento da agricultura no período neolítico abrigou a “ troca de mulheres” entre tribos, não apenas para evitar o incessante estado de guerra através da aliança por casamentos, mas também pois uma sociedade com mais mulheres poderia produzir mais crianças. Em contraste com a necessidade econômica das sociedades caçadoras/coletoras, a agricultura poderia usar o trabalho de crianças para aumentar a produção e acumular excedentes. Homens-como-um-grupo tinham direitos sobre as mulheres como mulheres-como-um-grupo não tinham direitos sobre os homens. As mulheres em si se tornaram um recurso, adquiridos por homens tanto quanto a terra era adquirida por homens. Mulheres foram trocadas ou compradas em casamentos para o benefícios de suas famílias; mais tarde elas foram conquistadas ou compradas na escravidão, onde seus serviços sexuais eram parte do seus trabalhos e onde suas crianças eram propriedades do seu mestre. Em toda sociedade conhecida foram as mulheres de tribos conquistadas as primeiras a serem escravizadas, onde os homens eram mortos. Foi apenas depois dos homens terem aprendido como escravizar de grupos que poderia ser definidas como estranhas, que eles aprenderam como escravizar homens desses grupos e , após, subordinar de suas próprias sociedades.

Portando, a escravização das mulheres, combinando ambos racismo e machismo, precedeu a formação da classe e das opressões de classes. As diferenças de classes foram no seu início expressada e construída em termos de relações patriarcais. Classe não é uma construção separado do gênero, em vez disso, classe é expressada em termos de gênero.

No segundo milênio antes de cristo nas sociedades mesopotâmicas, as filhas dos pobres eram vendidas para o casamento ou para a prostituição para satisfazer o interesse econômico de suas famílias. As filhas dos homens que possuíam propriedades poderiam pedir um preço pela noiva, pago pelo família do noivo para a família da noiva, o que frequentemente assegurava para a família da noiva mais vantagens para os casamentos dos filhos, melhorando a posição econômica da família. Se um marido ou pai não pudesse pagar a sua dívida, sua esposa e crianças poderiam ser usadas como peões , se tornando escravos por dívidas de seus credores. Essas condições eram tão firmemente estabelecidas no ano de 1750 A.C. que o código de Hamurábi faz uma melhora decisiva no lote de peões devedores, limitando os termos de serviços por três anos, quando anteriormente era para a vida toda.

O produto dessa transformação da mulher em mercadoria – preço da noiva, preço de venda, e crianças – foi apropriado pelos homens. Pode perfeitamente representar a primeira acumulação de propriedade privada. A escravização da mulheres conquistadas de tribos não apenas se tornou símbolo de status para nobres e guerreiros, mas certamente habilitou os conquistadores de adquirir riquezas através de venda ou troca de produtos das escravas de trabalho e seus produtos reprodutivos, as crianças escravizadas.

Claude Lévi-Strauss de quem nós tiramos o conceito de “a troca de mulheres”, fala da reificação da mulher, que ocorreu como consequência. Mas não foram as mulheres que foram reificadas e transformadas em mercadoria, foi a sexualidade da mulher e sua capacidade reprodutiva. A distinção é importante. Mulheres nunca se tornaram uma ‘coisa’ nem assim foram percebidas. Mulheres , não importam o quão exploradas e abusadas, retiveram seu poder de agir e de escolher da mesma forma, e frequentemente numa extensão muito limitadas, como homens de seus grupos.

Mas as mulheres sempre e até hoje vivem em um relativo estado de não-liberdade que vivem os homens. Desde de que sua sexualidade, um aspecto dos seus corpos, foi controlado por outros, mulheres não apenas estavam em desvantagens mas psicologicamente restringidas e suas maneiras especiais. Para mulheres e para homens de grupos subordinados e oprimidos , a história consiste em suas lutas por emancipação e liberdade por necessidade. Mas as mulheres lutaram contra diferentes formas de opressão e dominância que os homens, e as lutas delas, até os dias de hoje, ficou atrás das lutas dos homens.

O primeiro papel de gênero social para as mulheres foi o de ser trocada em transações de casamento. O papel observado para homens foi de ser os que fazem as transações ou os que definem os termos da troca.

Outro papel de gênero definido para as mulheres foi o de esposa “dona de casa”, que foi estabelecido e institucionalizado para mulheres de grupos da elite. Esse papel deu para essas mulheres poder e privilégios consideráveis, mas depende de sua ligação com os homens da elite e é baseado minimamente nas performances satisfatórias na prestação de serviços para esses homens nos serviços reprodutivos e sexuais. Se uma mulher falha nessas demandas, ela é trocada rapidamente e consequentemente perde todas os seus privilégios e status.

O papel de gênero de guerreiros levou os homens a adquirir poder sobre homens e mulheres de tribos conquistadas. Tais conquistas induzidas por guerras normalmente ocorriam entre pessoas diferentes dos vitoriosos seja por raça, etnia ou simplesmente diferenças tribais. Numa análise final da origem, ‘diferença’ como uma marca entre conquistados e conquistadores foi baseado na primeira diferença observada, sendo a diferença entre sexos. Homens aprenderam como impor e exercitar o poder sobre pessoas minimamente diferentes deles mesmo nas primeiras trocas de mulheres. E fazendo isso, homens adquiram o conhecimento necessário para elevar as “diferenças” de qualquer tipo de critério para dominância.

Desde o início da escravidão, a dominância de classe tomou formas diferentes entre homens e mulheres: homens eram primariamente explorados como trabalhadores, mulheres foram sempre exploradas como trabalhadoras, como provedoras de serviços sexuais e como reprodutoras. Os registros históricos de todas as sociedades escravizadas oferece evidência para essa generalização. A exploração sexual das mulheres de classes mais baixas por homens das classes mais altas pode ser mostradas na antiguidades, no feudalismo, nas casas burguesas dos séculos XIX e XX na Europa, na complexa relação entre sexo e raça entre mulheres de países colonizados e os homens colonizadores. Para mulheres, a exploração sexual é a própria marca de sua exploração de classe.

A qualquer momento da história, cada ‘classe’ é constituída de duas classes distintas – homem e mulher.

A posição de classe da mulher se tornou consolidada e atualizada através de suas relações sexuais. Elas sempre foram expressadas dentro de graus de não-liberdade dentro de um espectro que de um lado é a mulher escravizada, na qual a capacidade reprodutiva e sexual foi transformada em mercadoria assim como ela; passando pela escrava-concubina , que a performance sexual pode elevar seu status ou de suas crianças; e então para a esposa “livre”, em que os serviços sexuais e reprodutivos para um homem da elite a garantem direitos legais e de propriedade. Enquanto cada um desses grupos tem obrigações e privilégios bem diferentes em relação à propriedade, lei e recursos econômicos, eles dividem a não-liberdade de serem controlados pelos homens reprodutivamente e sexualmente. Nós podemos expressar da melhor maneiras a complexidade dos variados níveis da dependência e da liberdade das mulheres comparando cada mulher com seu irmão e considerando como as oportunidades e a vida da irmã e do irmão serão diferentes.

A classe para os homens foi e é baseada no seus relacionamentos com os meios de produção: aqueles que detém os meios de produção poderiam dominar aqueles que não detinham. Os donos dos meios de produção também adquiriram as mercadorias dos serviços sexuais femininos, tanto das mulheres de sua própria classe como das classes subordinadas. Na antiga mesopotâmia, na antiguidade clássica, e em sociedades escravizadas, homens dominantes também adquiriram, como propriedade, o produto da capacidade reprodutiva de mulheres subordinadas – as crianças, para serem trabalhadoras, trocadas, casadas, ou vendidas como escravas, como convinha o caso. Para mulheres a classe é mediada pelo seus laços sexuais com um homem. É através dos comportamentos sexuais que elas ganha acesso a classe. “Mulheres respeitáveis” ganham acesso para a classe através dos seus pais e maridos, mas quebrar as regras sexuais podem às tirar desta classe. A definição sexual de “desviada” marca uma mulher como “não respeitável”, que de fato a coloca na mais baixa classe possível. Mulheres que recusam serviços sexuais (como mulheres solteiras, freiras, lésbicas) estão conectadas com os homens dominantes pela suas famílias de origem e através deles ganham acessos a recursos. Ou, em alternativa, elas são rebaixadas. Em alguns períodos históricos, conventos e outros locais para mulheres solteiras criaram locais protegidos nos quais tais mulheres poderiam funcionar e reter sua respeitabilidade. Mas a vasta maioria das mulheres solteiras são por definição, marginais e dependentes da proteção dos parentes masculinos. Isso é verdade através da história até meados do século XX no mundo ocidental e ainda é a realidade na maior parte dos países subdesenvolvidos hoje. O grupo de mulheres independentes, e auto sustentável que existe em todas as sociedades é pequeno e altamente vulnerável ao desastre econômico.

Opressão econômica e exploração são baseadas na mercantilização da sexualidade feminina e na apropriação por homens do poder de trabalho das mulheres e do poder reprodutivo delas, assim como a sua direta aquisição de recursos e pessoas.

O arcaico estado do Antigo Oriente emergiu no segundo milênio A.C. das raízes da dominância sexual masculina sobre as mulheres e da exploração de alguns homens sobre outros. No seu começo, o estado arcaico foi organizado de tal maneira que a dependência do chefe de família ao rei ou à burocracia do estado foi compensada pela sua dominância nas famílias. O chefe da família aloca os recursos da sociedade para a suas famílias da mesma maneira que o estado alicia os recursos da sociedade para eles. O controle do homem chefe da família sobre os parentes femininos e filhos menores era tão importante para a existência do estado assim como o controle do rei sobre os seus soldados. Isso é refletido nas várias compilações das leis mesopotâmicas, especialmente no grande número de leis lidando com a regulamentação da sexualidade feminina.

A partir do segundo milênio A.C. em diante o controle sobre o comportamento sexual dos cidadãos tem tido um grande significado de controle social em todos os estados da sociedade. De modo inverso, a hierarquia de classe é constantemente reconstituída dentro da família através de dominância sexual. Independente do sistema político ou econômico o tipo de personalidade que pode funcionar em um sistema hierarquizado é criado e cuidado dentro de uma família patriarcal.

A família patriarcal tem sido incrivelmente resiliente e variada em diferentes tempos e locais. O patriarcado oriental incorporou a poligamia e manteve as mulheres presas em harems. Patriarcado na antiguidade clássica e no desenvolvimento da Europa foi baseado na monogamia, nas suas formas de duplo padrão sexual, que não é vantajoso para as mulheres, é parte do sistema. No estado industrial moderno, como os Estados Unidos, as relações de propriedades dentro da família desenvolveram linhas mais de igualdade do que as que o pai possui poder absoluto, mas nas relações econômicas e sexuais dentro da família não mudaram necessariamente. Em alguns casos, relações sexuais são mais iguais, enquanto as relações econômicas mantém-se patriarcais; em outros casos o padrão se reverte. Em todos os casos, no entanto, tais mudanças dentro da família não altera a dominação masculina no ambiente público, nas instituições e no governo.

A família não apenas reflete a ordem do estado e educa as crianças a seguir ele, mas também cria e constantemente reforça essa ordem.

Deveria ser notado que quando falamos em melhoras no status da mulher dentro da sociedade, ela frequentemente significa apenas que estamos vendo melhoras em algum grau onde a situação oferece oportunidade de exercer alguma influência dentro do sistema do patriarcado. Quando mulheres têm relativamente mais poder econômico elas têm algum tipo de controle sobre suas vidas que em sociedades onde não tem poder econômico nenhum. Similarmente a existência de grupos de mulheres, associações, ou redes de serviços econômicos servem para aumentar a habilidade das mulheres de agir contra a ditadura patriarcal que age particularmente. Alguns antropologistas e historiadores chamou essa melhora relativa de “liberdade”. Essa designação é uma ilusão e injustificável. Reformas e mudanças legais, enquanto amenizam a condição da mulheres e é necessário para a o processo de emancipação, não irá mudar o patriarcado em sua base. Tais reformas precisam ser integrada dentro de uma revolução cultural vasta na condição de transformar o patriarcado e então abolir ele.

O sistema patriarcal funciona apenas com o cooperação das mulheres. Essa cooperação é assegurada de maneiras diversas: doutrinação de gênero; privação de educação; a negação às mulheres sobre sua história; divisão das mulheres, uma das outras, pela definição de “respeitáveis” e “degeneradas” de acordo com a atividade sexual das mulheres; por restrições e coerção completa; por dicromiação no acesso de recursos econômicos e de poder político; e por garantir privilégios de classe à mulheres que conformam com as regras.

Por quase quatro mil anos mulheres têm moldado suas vidas e agido debaixo do guarda-chuva do patriarcado, especificamente na forma melhor descrita do patriarcado como a dominância paternalista. O termo descreve uma relação de um grupo dominante, em que a dominância é mitigada por obrigações mútuas e direitos recíprocos. O dominado troca sua submissão por proteção, trabalho não remunerado por subsistência. Na família patriarcal, responsabilidades e obrigações não são igualmente distribuídas entre os que são para ser protegidos: os filhos homens são temporariamente subordinados à dominância do pai; ela dura até quando eles se tornam chefes de famílias. A subordinação das filhas e esposas dura a vida toda. Filhas podem escapar se apenas elas se colocarem enquanto esposas sob a dominância/proteção de outro homem. A base do paternalismo é um contrato não escrito de troca: suporte econômico e proteção dada por um homem, em troca de subordinação em todos os aspectos, serviços sexuais, e serviços domésticos não remunerados dados pelas mulheres. Ainda sim o relacionamento frequentemente continua de fato e na lei, até quando o homem não cumpre a sua parte da obrigação.

Foi uma escolha racional para as mulheres, em condições de falta de poder e dependência econômica, escolher protetores fortes para elas e suas crianças. Mulheres sempre dividiram os privilégios de classe dos homens de sua classe enquanto elas estiverem sob “proteção deles” . Para mulheres, outras além das de classes mais baixas, o “acordo recíproco” ocorria dessa maneira: em troca de sua subordinação sexual, econômica, política e intelectual aos homens, vocês podem dividir o poder dos homens de sua classe em explorar homens e mulheres de classes mais baixas.

Na sociedade de classes é difícil para pessoas que tenham algum poder, mesmo que limitado e restrito à algo, possam se ver como também privadas e subordinadas. Privilégios de raça e classe servem para rebaixar a habilidade da mulher de ver elas mesmas como parte de um grupo coerente, já que as mulheres diferente de todos os outros grupos oprimidos, ocorrem em todos os estratos da sociedade. A formação do grupo de mulheres conscientes têm de proceder através de diferentes linhas. Esta é a razão porque formulações teórica, que foram apropriadas por outros grupos oprimidos, são tão inadequadas em explicar e conceitualizar a subordinação das mulheres.

Mulheres por milênios participaram do processo de sua própria subordinação porque elas foram moldadas psicologicamente para internalizar a ideia de sua própria inferioridade. A falta de conhecimento da própria história de luta e sucesso tem sido um dos maiores meios de manter as mulheres subordinadas.

A conexão da mulher com a estrutura familiar fez com que qualquer desenvolvimento de solidariedade feminina e grupos coesos fossem extremamente problemáticos. Cada mulher individualmente está ligada ao seu parente masculino na sua família de origem através de laços que implicam obrigações específicas. A sua doutrinação, desde criança, enfatizam a sua obrigação não apenas na contribuição econômica para os parentes e para o ambiente familiar mas também para aceitar o parceiro a partir do interesse da família. Outra maneira de dizer é que o controle sexual das mulheres está ligado à proteção paternalista e que, em vários estágios da vida dela, ela muda de de protetores masculinos, mas nunca cresce o estado de infantilização de ser subordinada e de estar sobre tutela.

Outras classes oprimidas e grupos foram impelidos para a consciência de classe pela sua própria condição de seu status de subordinação. Escravos podiam claramente marca uma linha entre os interesses e laços com suas famílias e laços de subserviência/proteção com o mestre. De fato, proteção dos escravos parentes de sua própria família contra os mestres foi uma das mais importantes causas das revoltas de escravos. Mulheres “livres” por outro lado, aprenderam cedo que seus parentes lhe abandonariam caso elas se rebelassem contra sua dominação. Em sociedades tradicionais e camponesas há vários registros de mulheres da família que toleraram e até participaram de castração, tortura e até morte de meninas que transgrediram a “honra” da família. Nos tempos bíblicos a comunidade inteira se juntava para matar à pedradas as adúlteras. Práticas similares permaneceram na Sicília, Gŕecia e Albânia até no século 20. Em Bangladesh Pais e maridos expulsam suas filhas e mulheres que foram estupradas por soldados invasores, mandando elas para a prostituição. Assim, mulheres, são frequentemente forçadas a fugir de um “protetor” para outro, sua “liberdade” frequentemente definida apenas por sua habilidade de manipulação entre esses protetores.

O maior indicativo de impedimento para o desenvolvimento de consciência de classe para as mulheres foi a ausência de tradição que reafirmariam a sua independência e autonomia e qualquer período. Nunca houve nenhuma mulher ou grupo de mulheres que vivem sem a proteção masculina, até onde a maioria das mulheres sabiam. Nunca houve nenhum grupo de pessoas como elas que tivessem feito qualquer coisa significativa para elas. Mulheres não tem história- é o que disseram; então elas acreditaram. Assim, finalmente, foi a hegemonia masculina sobre o sistema simbólico que mais decisivamente deixou as mulheres menos favorecidas.

 

 

 

Marcha das Vadias: ato feminista ou carnaval queer?

À frente da Marcha, bandeira LGBT nas mãos de um homem. Não se vê, na imagem, bandeira feminista. Créditos da foto: Carla DC

A Marcha das Vadias é um movimento liberal, que defende sistemas de exploração do sexo feminino – como a prostituição e a pornografia – como trabalhos comuns ou até mesmo formas de “empoderamento”, sem um questionamento profundo da dominação dos homens sobre as mulheres na sociedade. Apesar deste caráter, a Macha ainda é uma manifestação que se propõe feminista e contra violências masculinas como assédio e estupro.

Em 2015, a Marcha teve o mesmo tema em todo o Brasil: a legalização do aborto, necessária para preservar a vida das mulheres brasileiras que abortam de maneira clandestina e acabam muitas vezes mortas, encarceradas ou traumatizadas. No entanto, um movimento que se fundamenta em argumentos do liberalismo político, como a Marcha das Vadias, e entende o feminismo não como o Movimento de Libertação da classe das Mulheres, mas como “direito a escolha” (individual) ou “empoderamento” (também individual), não consegue construir um discurso sobre aborto que caminhe para a nossa libertação. Para isso, seria necessário discutir maternidade forçada como trabalho forçado feminino e aborto num contexto maior de direitos reprodutivos necessários para libertação da classe reprodutiva, as mulheres, da dominação masculina que se realiza através de diversos mecanismos, sendo a proibição do aborto apenas um deles, junto com outros mecanismos de controle reprodutivo como a proibição ou restrição do acesso a contraceptivos (países como a Tailândia proíbem, enquanto países como os EUA restringem ao permitir que empresas contratem seguros-saúde que não cobrem contraceptivos, de acordo com a religião do empregador), a gravidez forçada, o aborto forçado, bem como outras violências e explorações, como trabalho doméstico não pago e compulsório, estupro, espancamento, violência psicológica e emocional, assédio sexual, prostituição, pornografia, e tantas outras.

Sabendo disto, a GARRa Feminista se propôs a panfletar uma perspectiva de esquerda, revolucionária, radical sobre o aborto durante a concentração da Marcha das Vadias de Belo Horizonte no dia 20 de junho. Alguns acontecimentos nos chamaram a atenção durante o tempo em que panfletamos.

Carnaval queer

Como sempre, a Marcha tinha muitos, muitos homens presentes, muitos homens heterossexuais com suas companheiras, mas o que nos chamou a atenção, a princípio, foi a protagonização masculina nas danças e no batuque – que trazia marchinhas de carnaval (!), muitas vezes lesbofóbicas, no lugar de palavras de ordem feministas. Não havia nenhuma bandeira feminista, e a bandeira LGBT era o que roubava a cena, carregada com afinco por um homem de top e saia, com, o que nos pasmou, tinta vermelha entre as pernas. Na mesma marcha em que o cartaz ‘Homens também abortam’ apareceu, um homem gay rebolava até o chão com as marchinhas de carnaval tocando, fantasiado do que só podemos descrever, com muito desgosto, como ‘mulher e aborto clandestino’. Muito além da já misógina prática de usar da estética da nossa opressão (a feminilidade) como fantasia – o drag – este homem achou divertido se fantasiar de mulher morrendo. Um ato feminista pela legalização do aborto e pela vida das mulheres virou uma festinha à fantasia para os homens gays que celebravam “ser vadia”.

Homens não abortam. A proibição do aborto é uma opressão reservada a quem tem útero e vagina, que fazem parte da classe capaz de reproduzir e para a qual os direitos humanos mais básicos são negados: as mulheres. Considerar que homens abortam não significa apenas roubar nosso protagonismo no movimento feminista, mas também negar a opressão que sofremos enquanto mulheres – que tem base material, na exploração dos nossos corpos, dos nossos úteros. Somos forçadas a prosseguir com a gestação, abandonadas pelos pais de nossos filhos, levadas a fazer abortos clandestinos que culminam em sangramentos e hemorragias que podem levar à morte. E mesmo mulheres que não abortam sofrem violência: mulheres cujas tentativas de aborto falharam, mulheres forçadas pelos parceiros a manter a gravidez ou mesmo mulheres coagidas pela ideologia patriarcal, da religião ou da moral patriarcais, a enxergar como errado, como pecado ou imoral interromper uma gestação, correm risco de sofrer violência obstétrica durante o pré-natal e o parto. A maioria dessas questões não foram levantadas na Marcha, que parecia muito mais preparação para uma festa do que um protesto.

O sangue entre as pernas daquele rapaz é um deboche da condição feminina de segundo sexo, da negação de direitos e da invisibilidade de nossas demandas feministas. Falar de aborto é falar de mulher, e um homem carregando o sangue de um aborto entre as pernas é um desserviço político e um desrespeito a todas as mulheres e à causa feminista.

Marcha

Marcha

Mulheres invisíveis

Enquanto panfletávamos, presenciamos uma cena muito forte, bem ao lado de onde estavam as pessoas dançando ao som do batuque da Marcha, uma mulher, aparentemente moradora de rua, era empurrada contra uma árvore por um homem, também morador de rua. Ele a beijava a força, a tocava, enquanto ela tentava se desvencilhar, chorando muito. Tentamos intervir e o homem se tornou agressivo. Conseguimos afastar o homem dela, que foi se deitar longe dali. Foi apenas nessa hora que algumas companheiras se solidarizaram e ajudaram a afastar o homem, que ao perceber que éramos lésbicas, começou a querer nos agarrar e beijar. Ainda assim, se solidarizaram conosco (elas não estavam perto quando o homem assediava a moradora de rua), ao passo que as outras pessoas, que estavam perto quando o assédio ocorria, seguiam dançando as marchinhas e não vendo o que estava acontecendo. Conversamos um pouco com a mulher, que contou alguns detalhes de sua vida e vimos ali que ela estava numa situação extremamente vulnerável, sendo agredida por um homem que tinha conhecido no dia anterior, simplesmente por ter ido dançar junto das outras mulheres que faziam parte da Marcha das Vadias.

Depois de sermos forçadas a nos afastar com as ameaças do homem em questão, tentamos ficar de olho de longe no que acontecia. Enquanto isso, a Marcha seguiu seu caminho. Vimos essa mulher deitada, enquanto o homem a chutava e a balançava, fazendo carinho depois. Eram duas pessoas em situação de rua, extremamente vulneráveis, ambas negras, mas havia claramente ali a opressão masculina sobre aquela mulher.

Quando a Marcha das Vadias surgiu, era sobre o direito da mulher de vestir-se ou portar-se como quiser sem ser culpabilizada caso sofresse violência física, sexual, verbal ou psicológica. Achamos bastante sintomático que, ao lado do batuque dessa Marcha, uma mulher tenha sido agredida e que nada tenha sido feito. A fala desta mulher para o homem que a agrediu foi de quem tentava se justificar: “eu só estava dançando”. A Marcha das Vadias, apesar de defender os direitos dela na teoria, não a protegeu na prática.

Criticamos a falta de atenção e cuidado da organização da Marcha das Vadias de Belo Horizonte. Todo ano presenciamos situações de agressão misógina durante a realização deste evento, e desta vez não houve sequer envolvimento da organização do mesmo. Ficou claro que a Marcha não é um ambiente seguro para mulheres, que elas não estão protegidas, mesmo entre inúmeras feministas e homens que dizem apoiar o feminismo. Faltou olhar para o lado e se preocupar com as outras mulheres, faltou o entendimento de que o feminismo é uma luta coletiva, por todas as mulheres, inclusive as que moram na rua. Faltou uma crítica ao individualismo incorporada nas práticas de quem constrói aquele evento – tanto organização quanto público.

Faixagb

Contra críticas, hostilidade

Presenciamos, também, uma mulher negra discutindo com uma das organizadoras da Marcha, branca, e ambas gritavam. Poucas pessoas pararam para tentar mediar a situação ou dialogar, mas percebemos ali que a companheira negra ressaltava o caráter racista e elitista da Marcha das Vadias. São questionamentos frequentemente levantados nos meios feministas: como a Marcha das Vadias é um movimento majoritariamente branco e classe média, com um discurso de apropriação e ressignificação de ofensas misóginas que não serve às mulheres em geral, mas principalmente às negras e pobres, grupos em situação social mais vulnerável. Em pouco tempo já ouvimos gritos de “cala a sua boca” de parte da mulher branca, tentando agressivamente silenciar as críticas. Essa mesma mulher disse à companheira negra que ela não precisava acompanhar a marcha, que se estava insatisfeita poderia retirar-se.

Esta é uma postura comum de feministas liberais (e fazemos essa análise de que era uma feminista liberal por que estava hostilizando uma mulher para defender um movimento feminista liberal, que é a Marcha das Vadias, de críticas) quando questionadas sobre seus métodos políticos e sobre sua ideologia e como os mesmos se relacionam com a população de mulheres negras e pobres. Vimos ali que as críticas dessas mulheres não eram bem-vindas, e mais que isso, que eram tratadas como ações contrárias ao movimento e, em vez de consideradas, eram rebatidas com hostilidade. Esta é a mesma hostilidade que nós, feministas radicais, especialmente dentre nós as que são negras ou lésbicas, recebemos ao criticar individualismo e liberalismo no movimento feminista, e nesse sentido, nos solidarizamos com a companheira.

Por fim, queremos deixar claro que, para nós, a “libertação sexual” proposta pela Marcha das Vadias não é libertação de modo algum, é apenas mais uma forma de dominação masculina sobre as mulheres e que não acreditamos na ressignificação da palavra “vadia” e seus sinônimos como método efetivo para a libertação das mulheres. Lutamos por um mundo em que as mulheres possam se relacionar livremente, porém com auto-estima, segurança e um real poder sobre seus corpos e mentes, sem, nunca, jamais, serem chamadas – ou sentirem-se – vadias.

GARRa Feminista.