Caminhadas Lésbicas e a Fúria que não nos permite calar!

Primeiro, um pouco da história

Em Belo Horizonte a Associação Lésbica de Minas – ALEM, foi a coletiva responsável em 1998 por organizar a primeira I Parada do Orgulho LGBT em Minas Gerais.

Na Parada Gay as lésbicas tiveram por muitos anos um trio elétrico, depois passaram a marchar no chão, como a comissão de frente, com a intenção de chamar as mulheres a caminharem juntas.

No ano de 2005, percebendo a necessidade de dar voz, visibilidade e espaço para as pautas lésbicas, que acabavam sendo abafadas pelas demais, que dominavam as ruas e as capas de jornais, a ALEM, após uma reunião de planejamento anual, decidiu por entregar a organização da Parada Gay para o CELLOS/MG e a se dedicar exclusivamente à construção da 1ª Caminhada Lésbica que aconteceu em um sábado de julho de 2005, um dia antes da Parada Gay de BH.

De 2005 (1ª) a 2009 (5ª) a Caminhada Lésbica de Belo Horizonte se chamava Caminhada das Lésbicas e Simpatizantes de BH, e aconteceram no sábado anterior a Parada Gay, no mês de julho.

V Caminhada Lesbica

Em 2010 (6ª) passou a se chamar Caminhada das Lésbicas, Bissexuais e Simpatizantes de BH, ainda ocorrendo no sábado a tarde anterior a Parada Gay, em julho.

Em 2011 (7º), a Caminhada passou a acontecer no mês de agosto, uma forma de se tornar totalmente independente da Parada Gay e assim fortalecer o mês que dos Orgulho (19/08) e Visibilidade (29/08) Lésbica, tendo ocorrido na tarde de 27 de agosto, passando então a se chamar Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de BH.

Em 2011, com o encerramento das atividades da ALEM, a 11ª Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de BH foi organizada por coletivos feministas, LGBT e mulheres independentes que decidiram, de maneira corajosa, não deixar morrer um ato tão importante.

Em 30 de agosto de 2019, a 15ª Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de BH tomou as ruas de BH.


Segundo, a fúria

O breve resumo histórico feito desses quase 16 anos de luta, coragem, ousadia e negação de ficar nas sombras, que levou para as ruas mulheres que sempre defenderam sua independência para falarem por si, para exigirem e conquistarem respeito e visibilidade teve a intenção de declarar que estamos furiosas.

No “Verão Radical”, acampamento de verão organizado pela GARRa feminista esse mês de Janeiro, entre os dias 17 a 19, tivemos um painel para discutir a importância dos fortalecimento das Caminhadas Lésbicas do Brasil. Da discussão que se seguiu ficou cada dia mais evidente que as mulheres lésbicas não são nada na sociedade, as lésbicas são silenciadas constantemente, acusadas de transfobia, de bifobia e até mesmo de heterofobia por qualquer coisa que digam e não agrade, por todas as vezes que exigem serem ouvidas, vistas, respeitadas, cada vez que uma lésbica impõe um limite, ele é visto como agressivo, violento e fóbico!!!!

Em todo o mundo muitas Caminhadas, que sempre foram referência, estão perdendo sua identidade para agregar pautas que ignoram as vozes das lésbicas, que negam a sexualidade, a identidade política e social dessas mulheres.

Ver a história da Caminhada de BH, mesmo que resumida, deixa evidente a capacidade de mudança, diálogo, reconhecimento da importância de todas as mulheres que desejam somar, foram tantos temas, foram tantas cores, tantas canções, tantos gritos, tantas reuniões e meses dedicados ao Orgulho e a Visibilidade Lésbica, que acusar uma organização horizontal, independente e múltipla de ser perigosa e fóbica, é demonstrar o descaso com a história, o sangue, a vida e a voz das que foram expulsas de casa, mortas, estupradas, espancadas por amarem e decidirem priorizar suas vidas para outras mulheres.

Espaços que deveriam ser seguros, pois dizem ser para mulheres, além de calarem os pensamentos diversos, propõem boicotes a eventos e Caminhadas Lésbicas, enquanto alegam que o “seu protagonismo está na força da mulher sapatona” se negam ao diálogo, se negam a somar, preferem expulsões e ataques, usando da censura para manter o véu da “desconstrução” que não aceita diferenças, preferem marchar outras “caminhadas” a somar com a caminhada lésbica.

Esses locais usam da carência de atividades voltadas exclusivamente para mulheres, se nomeiam intolerantes a qualquer tipo de preconceito, mas impõem uma política de silêncio, perseguição e medo para aquelas que defendem que gênero é opressão, que a sexualidade está relacionada ao sexo e que lésbicas são mulheres que se relacionam afetivo/sexualmente exclusivamente com outras mulheres.

Sapatão se tornou uma palavra da moda, palavra essa que foi por anos um xingamento vulgar usado por aqueles que desejavam desmerecer as relações lésbicas, por isso, para tirar esse poder destruidor dessa palavra, as lésbicas a ressignificaram e a tornaram parte dos seus símbolos, entretanto, agora ela é usada como passe livre para fingir uma inclusão que exclui, virando quase um deboche com aquelas que têm sido colocadas no papel de opressoras apenas por não se submeterem a desonestidade agressiva dos que confundem (ou fingem confundir) gênero com sexo e têm tentado fazer das Caminhadas um palco para suas vaidades e fetiches, seja através de fofocas, ameaças veladas, negativa de diálogo, acusações sem provas ou cartas abertas repletas de rancor e sem nenhuma responsabilidade com as conseqüências dela.

Por isso estamos furiosas, porque nossa história não nos deixa mentir que SEMPRE tivemos como foco a libertação das mulheres, que SEMPRE estivemos abertas ao diálogo, que SEMPRE procuramos evoluir, mas é claro, sem perder a razão que colocou nas ruas a 1ª e a 15ª Caminhadas, que são o Orgulho e a Visibilidade das Mulheres Lésbicas.

Desta forma propomos que as mulheres se organizem, que estudem, que resgatem suas memórias e deixem de sentir culpa por serem quem são, como bem disse Audre Lorde “seu silêncio não o protegerá”, pelo contrário, ele dará a força necessária para que as pautas de ódio nos apaguem, nos torne ainda mais vulneráveis e que a nossa diversidade seja tratada como criminosa.

Há várias coletivas, há vários blogs sérios, há páginas e feministas dispostas a fazer com que a união entre mulheres, enquanto classe, seja uma realidade capaz de fazer a revolução que temos buscado, a revolução que fará com que a opressão do gênero não mais nos acorrente, permitindo com que sejamos livres, sejamos enfim humanizadas, sem que depilação, submissão, violência doméstica, maquiagem, salto alto e feminilidade sejam sinônimo de mulher.

Sejamos as donas dos nossos símbolos, sejamos aliança, união e resgate do amor entre mulheres que tem nos sendo usurpado pela falácia da rivalidade feminina, as Caminhadas Lésbicas são nossos espaços de luta, por isso devemos fortalecê-las, não apenas no dia em que irão sair nas ruas, mas em todos os dias do ano!

8 de março – dia das mulheres trabalhadoras e a luta do feminismo radical.

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“Mulheres Unidas” – poster do coletivo See Red

Hoje é comemorado o dia de luta das mulheres trabalhadoras, um dia para se lembrar de todas que construíram a luta feminista e contribuíram para a melhora dos direitos trabalhistas, mas também um dia para ir às ruas e continuar a luta que essas mulheres começaram. Ir para as ruas em atos é mostrar que, durante todo o ano, estaremos presentes para barrar e resistir aos ataques da direita, que atingem as mulheres seja em sua aposentadoria, seja pela intensificação da divisão sexual do trabalho. A divisão sexual do trabalho separa e estabelece uma hierarquia entre homens e mulheres, intensificando a diferença social nos postos de trabalho (trabalho “de mulher e de homem”) e dando valores monetários e sociais maiores para o trabalho dito masculino,  precarizando, assim, os postos de trabalhos ocupados por mulheres.

Estamos há dois meses de um governo de direita que se utiliza de uma batalha moral identitária para atacar e desmoralizar a esquerda,  e, ao mesmo tempo, apresenta planos de precarização do trabalho, que irão atingir com mais força as mulheres trabalhadoras. As mulheres são o maior contingente de desempregados no país, motivo pelo qual elas procuram trabalhos informais e perigosos, sejam aliciadas para a prostituição e sofram diversos tipos de violência e estigmatização. Além disso, as mulheres são as responsáveis pelo cuidado materno e do lar, tendo uma maior carga de trabalho e stress mental que os homens.  Para combater esse governo, precisamos estar organizadas e preparadas para enfrentar cada ataque direcionado a nós, precisamos entender como a divisão sexual do trabalho se evidencia nessa conjuntura.

O feminismo radical nasceu dentro da esquerda no final da década de 60 e não há como fazê-lo de outra maneira, a militância tem de ser feita pela esquerda e com todas as dificuldades que apresenta, não há atalhos na luta, é através da formação de base e da prática feminista que conseguiremos alcançar nossos objetivos.  A prática é o critério da verdade, é atuando no dia a dia que saberemos quais são as lutas e os anseios das mulheres brasileiras e conseguiremos definir com clareza nossas batalhas e estratégias. As feministas radicais do Brasil precisam se organizar e fazer a luta coletiva e, colocar as mulheres no centro da luta, é fundamental para o avanço da esquerda no país.

Neste 8 de março de 2019 a GARRa sai mais uma vez às ruas em marcha, para pedir justiça pelas vítimas de Brumadinho, atingidas pelas mãos da criminosa Vale e manifestar-se contra a reforma da previdência do governo Bolsonaro que só irá ampliar as desigualdades entre homens e mulheres na sociedade brasileira.  Lutamos também pela legalização do aborto e pela sua implementação de forma gratuita e segura em todo o SUS. O aborto ilegal segue sendo uma das principais causas de morte materna, uma evidência do controle patriarcal dos nossos corpos e a imposição da maternidade e da exploração da nossa capacidade reprodutiva.  Saímos em marcha para denunciar esse governo conservador e subserviente às pautas evangélicas, que declarou guerra às mulheres, querendo nos tomar o pouco que conquistamos!

Chamamos todas as feministas radicais do Brasil para juntarem-se conosco nessa luta, por um projeto feminista radical para todas as mulheres!

AS TAREFAS DO FEMINISMO RADICAL BRASILEIRO APÓS O GOLPE

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As feministas radicais brasileiras têm tomado diferentes posicionamentos, e partido de diferentes entendimentos em relação aos processos políticos que temos vivido em nosso país. Algumas encontram-se ainda hoje reticentes em admitir que vivemos um golpe. Outras, demasiadamente influenciadas pelos discursos petistas, aceitam que foi um golpe mas concentram suas esperanças na ilusão de um novo governo de conciliação de classes liderado por Lula em 2018. Nós da GARRa Feminista buscamos com este texto ajudar a avançar na unidade entre as feministas radicais através da crítica, pois entendemos que, neste momento, é crucial elaborar consensos que nos permitam construir uma agenda conjunta de lutas e superar a fragmentação que tem fragilizado nosso campo, impossibilitando a construção de um projeto feminista radical para o Brasil. A análise que segue é o fruto de discussões que realizamos ao longo de cerca de dois anos, e que compartilhamos agora:

1 Precisamos primeiramente reconhecer que passamos por um golpe, e que esse golpe não foi apenas contra uma governante, um governo ou um partido. Foi um golpe contra a classe trabalhadora, como se revelou posteriormente com a agenda de cortes e reformas, e foi um golpe contra a classe das mulheres. Um golpe, ainda que um golpe parlamentar – ou golpe branco, como foi chamado por alguns – difere em muito de um golpe militar, mas não deixa de ser um golpe todavia, e também significa uma ruptura democrática com sérias implicações para populações exploradas e para os movimentos sociais. Deixemos de lado a discussão idealista sobre o que é ou não legítimo, que foi feita de maneira leviana por alguns partidos, ao se recusarem a chamar o governo Temer de ilegítimo, por considerar que os governos anteriores também o seriam por não representar verdadeiramente os interesses do povo. Consideremos a realidade de uma democracia capitalista: o que é legítimo é nada mais que o que foi legitimado. O processo eleitoral é o que legitima um governo e confere a este o direito de formular e aplicar políticas. Enquanto feministas radicais, não defendemos de nenhuma forma a via reformista, nem entendemos que é pela via eleitoral que a revolução que desejamos virá, mas entendemos que uma ruptura nesses processos de legitimação provocada pelos setores da direita, que representam as burguesias nacional e internacional, têm sérios impactos para o povo, e que as lutadoras e os lutadores do povo ficam enfraquecidos em sua capacidade de influenciar decisões e obter vitórias nas lutas pontuais quando não há garantia sequer que os próprios processos decisórios do estado serão cumpridos. Nesse sentido, reivindicar que foi sim um golpe assume uma importância política fundamental. Precisamos deixar registrado na história que o que vivemos foi e é um golpe, e construir as nossas lutas a partir disso daqui para frente.

2 Foi um golpe patriarcal. Não (só) por ter deposto uma presidenta mulher, mas por terem se colocado no poder setores políticos conservadores e supremacistas masculinos, ligados a organizações patriarcais como as igrejas. Verificamos isso pela própria agenda do golpe, de desmonte de conquistas feministas como a aposentadoria que reconhece a dupla jornada feminina decorrente da divisão sexual do trabalho, as “reformas” educacionais, o Estatuto da Família voltando a tramitar e a ameaça, agora mais forte, do risco Estatuto do Nascituro ser aprovado no jogo político entre setores diversos da direita, em que os direitos das mulheres viram moeda de troca. A precarização do trabalho e o aumento da informalidade afetam gravemente a condição das mulheres brasileiras, e somado à dificultação do acesso às políticas de assistência e previdência, resultam no aumento da população feminina em situação de prostituição e de rua, e o encarceramento das mulheres. Vimos também, com muito desgosto, o aspecto patriarcal do golpe revelado numa nova ascensão do primeiro-damismo nas figuras de Marcela Temer e Bia Dória, esposa do infame ex-prefeito de São Paulo, e mundialmente de Melania Trump.

3 Mais um ato do ataque dos setores da direita foi o julgamento do ex-presidente Lula e sua prisão. A forma com que todo o processo ocorreu, o tempo recorde de julgamento até a decisão do Supremo Tribunal Federal, com uma ameaça velada do general da ativa do exército, mostra um claro interesse em mantê-lo preso por sua possibilidade real de ser vencedor das eleições de 2018. Se há de fato uma culpa de Lula pelo que está sendo acusado, que se faça por um processo da maneira correta, com todas as instâncias, no tempo necessário e que as provas sejam apresentadas de maneira contundentes. E, assim como na questão do golpe, a parcialidade descarada com que o plano de prisão foi executado constitui uma ameaça contra os projetos da esquerda. A burguesia deixa claro que não está mais interessada na conciliação representada (e efetivada por mais de uma década) pela figura do ex-presidente, e que está determinada a eliminar qualquer oposição a seus interesses.

4 Não nos esquecemos, no entanto, dos erros graves dos governos PT. O apaziguamento dos movimentos sociais, a lei antiterrorismo, e a política econômica de juros elevados, que incorreu na dívida pública, estão agora sendo utilizados pelo governo da direita contra o povo, mas as raízes do que agora está sendo usado a atacar o povo surge da aliança do PT com setores da burguesia. Entendemos que os governos PT foram bem sucedidos em garantir avanços para a classe trabalhadora em um momento diferente do capitalismo, de crescimento e não de crise, que a escolha foi por uma política de conciliação de classes, que buscava aliar os interesses da burguesia e da classe trabalhadora, e que esta política não mais será possível daqui para frente. Não há saída fácil para esta crise, nem para a classe trabalhadora nem para a classe das mulheres. E muitas das dificuldades que enfrentamos agora está diretamente relacionada ao enfraquecimento da esquerda que ocorreu durante os governos PT.

5 A direita brasileira está fragmentada. Por um lado, isso fortalece pequenos grupos de extrema direita (neonazistas, fascistas, a “alt-right”), que se articulam mais e ficam mais ousados. Os recentes ataques com armas de fogo contra caravanas e acampamentos da esquerda mostram que esses grupos estão dispostos a ações mais violentas.

6 É preciso agora construir o novo projeto político de esquerda para o Brasil sobre os escombros do velho projeto político, e as feministas radicais não devem se ausentar dessa tarefa. Ainda que sejamos poucas em número, e que nossas organizações ainda não tenham atingido o estado que desejamos, não podemos nos refugiar no esquerdismo e no sectarismo, e formular políticas que nos pareçam moralmente corretas, mas sejam inaplicáveis, e nem formulá-las no isolamento, com base no idealismo. Precisamos estar em constante diálogo com outros movimentos, sendo influenciadas e também influenciando.

7 Um dos campos dessa disputa da direita é justamente o feminismo. Precisamos construir um feminismo radical, inequivocamente de esquerda, massivo, popular. A direita liberal avança, neste momento, nas chamadas “políticas de igualdade” e num projeto de capitalismo da diversidade e da inclusão. Nós, enquanto feministas radicais, rejeitamos as abordagens da igualdade, da diversidade e da inclusão, que têm sido terreno fértil para a desestruturação do feminismo a partir da sua inclusão no estado e no mercado. Somos incontestavelmente pela libertação das mulheres, e não aceitamos nada menos que isso.

8 Nós precisamos lembrar que o feminismo radical sempre será feito por mulheres e para mulheres. Entendemos que há muitas companheiras em organizações mistas e que há companheiros homens que entendem a importância do movimento feminista centrado em mulheres, mas precisamos também compreender que as organizações mistas não priorizam a luta das mulheres. No contexto do 1º de maio, o dia das trabalhadoras e trabalhadores, percebemos o esquecimento da divisão sexual do trabalho pelas organizações de esquerdas, com uma recusa da maioria em fazer o debate sobre o trabalho das mulheres ‘donas de casa’, que continua sendo um trabalho não assalariado e tratado como “apêndice do trabalho assalariado”, mas que é o resultado direto da opressão da classe das mulheres pela classe dos homens. É hora da esquerda efetivamente fazer o debate com o reconhecimento de que os homens trabalhadores também utilizam o trabalho doméstico não remunerado das mulheres para o benefício da classe masculina.

9 Precisamos entender que não há solução de curto prazo, nem para as mulheres nem para o povo brasileiro. Não tem acordão que nos salve. As pequenas conquistas garantidas pela via do ativismo não são mais uma possibilidade para os direitos das mulheres e nem voltarão a ser. Assim como não é possível um novo pacto social entre burguesia e proletariado, um pacto entre as classes dos homens e das mulheres não está em nosso horizonte. Não estamos vivendo em uma época progressista em relação a direitos humanos, pois é necessário intensificar a exploração das mulheres, inclusive a exploração reprodutiva, para garantir o lucro. É necessária uma militância organizada, vontade e coragem para massificar o movimento e mudar a correlação de forças, para retomar a luta em busca de vitórias e não mais apenas contra perdas. Diante de tudo que foi aqui exposto, embora nossa análise compreenda o papel desempenhado pela prisão de Lula no contexto de ataques contra a esquerda, não podemos fazer da exigência por sua liberdade a nossa máxima prioridade. Entendemos que não podemos perder de vista o caráter fundamentalmente patriarcal das ofensivas da direita e que precisamos sempre ter as mulheres no centro de nossa luta. As mulheres serão sempre a nossa prioridade, mesmo quando – ou principalmente quando – são esquecidas por outros setores da esquerda.

10 O cenário de ataques constantes e de declínio das conquistas traz um desânimo, uma desesperança e um cansaço que atuam para nos afastar das batalhas. Com as vitórias distantes no horizonte, precisamos recuperar a alegria na luta, em nos encontrarmos nas ruas, em estarmos juntas. Construir uma militância que dure o tempo necessário para massificar o movimento e mudar a correlação de forças.

À luta, companheiras! Por um projeto feminista e radical para o Brasil e para o mundo!

 

Marcha das Vadias: ato feminista ou carnaval queer?

À frente da Marcha, bandeira LGBT nas mãos de um homem. Não se vê, na imagem, bandeira feminista. Créditos da foto: Carla DC

A Marcha das Vadias é um movimento liberal, que defende sistemas de exploração do sexo feminino – como a prostituição e a pornografia – como trabalhos comuns ou até mesmo formas de “empoderamento”, sem um questionamento profundo da dominação dos homens sobre as mulheres na sociedade. Apesar deste caráter, a Macha ainda é uma manifestação que se propõe feminista e contra violências masculinas como assédio e estupro.

Em 2015, a Marcha teve o mesmo tema em todo o Brasil: a legalização do aborto, necessária para preservar a vida das mulheres brasileiras que abortam de maneira clandestina e acabam muitas vezes mortas, encarceradas ou traumatizadas. No entanto, um movimento que se fundamenta em argumentos do liberalismo político, como a Marcha das Vadias, e entende o feminismo não como o Movimento de Libertação da classe das Mulheres, mas como “direito a escolha” (individual) ou “empoderamento” (também individual), não consegue construir um discurso sobre aborto que caminhe para a nossa libertação. Para isso, seria necessário discutir maternidade forçada como trabalho forçado feminino e aborto num contexto maior de direitos reprodutivos necessários para libertação da classe reprodutiva, as mulheres, da dominação masculina que se realiza através de diversos mecanismos, sendo a proibição do aborto apenas um deles, junto com outros mecanismos de controle reprodutivo como a proibição ou restrição do acesso a contraceptivos (países como a Tailândia proíbem, enquanto países como os EUA restringem ao permitir que empresas contratem seguros-saúde que não cobrem contraceptivos, de acordo com a religião do empregador), a gravidez forçada, o aborto forçado, bem como outras violências e explorações, como trabalho doméstico não pago e compulsório, estupro, espancamento, violência psicológica e emocional, assédio sexual, prostituição, pornografia, e tantas outras.

Sabendo disto, a GARRa Feminista se propôs a panfletar uma perspectiva de esquerda, revolucionária, radical sobre o aborto durante a concentração da Marcha das Vadias de Belo Horizonte no dia 20 de junho. Alguns acontecimentos nos chamaram a atenção durante o tempo em que panfletamos.

Carnaval queer

Como sempre, a Marcha tinha muitos, muitos homens presentes, muitos homens heterossexuais com suas companheiras, mas o que nos chamou a atenção, a princípio, foi a protagonização masculina nas danças e no batuque – que trazia marchinhas de carnaval (!), muitas vezes lesbofóbicas, no lugar de palavras de ordem feministas. Não havia nenhuma bandeira feminista, e a bandeira LGBT era o que roubava a cena, carregada com afinco por um homem de top e saia, com, o que nos pasmou, tinta vermelha entre as pernas. Na mesma marcha em que o cartaz ‘Homens também abortam’ apareceu, um homem gay rebolava até o chão com as marchinhas de carnaval tocando, fantasiado do que só podemos descrever, com muito desgosto, como ‘mulher e aborto clandestino’. Muito além da já misógina prática de usar da estética da nossa opressão (a feminilidade) como fantasia – o drag – este homem achou divertido se fantasiar de mulher morrendo. Um ato feminista pela legalização do aborto e pela vida das mulheres virou uma festinha à fantasia para os homens gays que celebravam “ser vadia”.

Homens não abortam. A proibição do aborto é uma opressão reservada a quem tem útero e vagina, que fazem parte da classe capaz de reproduzir e para a qual os direitos humanos mais básicos são negados: as mulheres. Considerar que homens abortam não significa apenas roubar nosso protagonismo no movimento feminista, mas também negar a opressão que sofremos enquanto mulheres – que tem base material, na exploração dos nossos corpos, dos nossos úteros. Somos forçadas a prosseguir com a gestação, abandonadas pelos pais de nossos filhos, levadas a fazer abortos clandestinos que culminam em sangramentos e hemorragias que podem levar à morte. E mesmo mulheres que não abortam sofrem violência: mulheres cujas tentativas de aborto falharam, mulheres forçadas pelos parceiros a manter a gravidez ou mesmo mulheres coagidas pela ideologia patriarcal, da religião ou da moral patriarcais, a enxergar como errado, como pecado ou imoral interromper uma gestação, correm risco de sofrer violência obstétrica durante o pré-natal e o parto. A maioria dessas questões não foram levantadas na Marcha, que parecia muito mais preparação para uma festa do que um protesto.

O sangue entre as pernas daquele rapaz é um deboche da condição feminina de segundo sexo, da negação de direitos e da invisibilidade de nossas demandas feministas. Falar de aborto é falar de mulher, e um homem carregando o sangue de um aborto entre as pernas é um desserviço político e um desrespeito a todas as mulheres e à causa feminista.

Marcha

Marcha

Mulheres invisíveis

Enquanto panfletávamos, presenciamos uma cena muito forte, bem ao lado de onde estavam as pessoas dançando ao som do batuque da Marcha, uma mulher, aparentemente moradora de rua, era empurrada contra uma árvore por um homem, também morador de rua. Ele a beijava a força, a tocava, enquanto ela tentava se desvencilhar, chorando muito. Tentamos intervir e o homem se tornou agressivo. Conseguimos afastar o homem dela, que foi se deitar longe dali. Foi apenas nessa hora que algumas companheiras se solidarizaram e ajudaram a afastar o homem, que ao perceber que éramos lésbicas, começou a querer nos agarrar e beijar. Ainda assim, se solidarizaram conosco (elas não estavam perto quando o homem assediava a moradora de rua), ao passo que as outras pessoas, que estavam perto quando o assédio ocorria, seguiam dançando as marchinhas e não vendo o que estava acontecendo. Conversamos um pouco com a mulher, que contou alguns detalhes de sua vida e vimos ali que ela estava numa situação extremamente vulnerável, sendo agredida por um homem que tinha conhecido no dia anterior, simplesmente por ter ido dançar junto das outras mulheres que faziam parte da Marcha das Vadias.

Depois de sermos forçadas a nos afastar com as ameaças do homem em questão, tentamos ficar de olho de longe no que acontecia. Enquanto isso, a Marcha seguiu seu caminho. Vimos essa mulher deitada, enquanto o homem a chutava e a balançava, fazendo carinho depois. Eram duas pessoas em situação de rua, extremamente vulneráveis, ambas negras, mas havia claramente ali a opressão masculina sobre aquela mulher.

Quando a Marcha das Vadias surgiu, era sobre o direito da mulher de vestir-se ou portar-se como quiser sem ser culpabilizada caso sofresse violência física, sexual, verbal ou psicológica. Achamos bastante sintomático que, ao lado do batuque dessa Marcha, uma mulher tenha sido agredida e que nada tenha sido feito. A fala desta mulher para o homem que a agrediu foi de quem tentava se justificar: “eu só estava dançando”. A Marcha das Vadias, apesar de defender os direitos dela na teoria, não a protegeu na prática.

Criticamos a falta de atenção e cuidado da organização da Marcha das Vadias de Belo Horizonte. Todo ano presenciamos situações de agressão misógina durante a realização deste evento, e desta vez não houve sequer envolvimento da organização do mesmo. Ficou claro que a Marcha não é um ambiente seguro para mulheres, que elas não estão protegidas, mesmo entre inúmeras feministas e homens que dizem apoiar o feminismo. Faltou olhar para o lado e se preocupar com as outras mulheres, faltou o entendimento de que o feminismo é uma luta coletiva, por todas as mulheres, inclusive as que moram na rua. Faltou uma crítica ao individualismo incorporada nas práticas de quem constrói aquele evento – tanto organização quanto público.

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Contra críticas, hostilidade

Presenciamos, também, uma mulher negra discutindo com uma das organizadoras da Marcha, branca, e ambas gritavam. Poucas pessoas pararam para tentar mediar a situação ou dialogar, mas percebemos ali que a companheira negra ressaltava o caráter racista e elitista da Marcha das Vadias. São questionamentos frequentemente levantados nos meios feministas: como a Marcha das Vadias é um movimento majoritariamente branco e classe média, com um discurso de apropriação e ressignificação de ofensas misóginas que não serve às mulheres em geral, mas principalmente às negras e pobres, grupos em situação social mais vulnerável. Em pouco tempo já ouvimos gritos de “cala a sua boca” de parte da mulher branca, tentando agressivamente silenciar as críticas. Essa mesma mulher disse à companheira negra que ela não precisava acompanhar a marcha, que se estava insatisfeita poderia retirar-se.

Esta é uma postura comum de feministas liberais (e fazemos essa análise de que era uma feminista liberal por que estava hostilizando uma mulher para defender um movimento feminista liberal, que é a Marcha das Vadias, de críticas) quando questionadas sobre seus métodos políticos e sobre sua ideologia e como os mesmos se relacionam com a população de mulheres negras e pobres. Vimos ali que as críticas dessas mulheres não eram bem-vindas, e mais que isso, que eram tratadas como ações contrárias ao movimento e, em vez de consideradas, eram rebatidas com hostilidade. Esta é a mesma hostilidade que nós, feministas radicais, especialmente dentre nós as que são negras ou lésbicas, recebemos ao criticar individualismo e liberalismo no movimento feminista, e nesse sentido, nos solidarizamos com a companheira.

Por fim, queremos deixar claro que, para nós, a “libertação sexual” proposta pela Marcha das Vadias não é libertação de modo algum, é apenas mais uma forma de dominação masculina sobre as mulheres e que não acreditamos na ressignificação da palavra “vadia” e seus sinônimos como método efetivo para a libertação das mulheres. Lutamos por um mundo em que as mulheres possam se relacionar livremente, porém com auto-estima, segurança e um real poder sobre seus corpos e mentes, sem, nunca, jamais, serem chamadas – ou sentirem-se – vadias.

GARRa Feminista.