Caminhadas Lésbicas e a Fúria que não nos permite calar!

Primeiro, um pouco da história

Em Belo Horizonte a Associação Lésbica de Minas – ALEM, foi a coletiva responsável em 1998 por organizar a primeira I Parada do Orgulho LGBT em Minas Gerais.

Na Parada Gay as lésbicas tiveram por muitos anos um trio elétrico, depois passaram a marchar no chão, como a comissão de frente, com a intenção de chamar as mulheres a caminharem juntas.

No ano de 2005, percebendo a necessidade de dar voz, visibilidade e espaço para as pautas lésbicas, que acabavam sendo abafadas pelas demais, que dominavam as ruas e as capas de jornais, a ALEM, após uma reunião de planejamento anual, decidiu por entregar a organização da Parada Gay para o CELLOS/MG e a se dedicar exclusivamente à construção da 1ª Caminhada Lésbica que aconteceu em um sábado de julho de 2005, um dia antes da Parada Gay de BH.

De 2005 (1ª) a 2009 (5ª) a Caminhada Lésbica de Belo Horizonte se chamava Caminhada das Lésbicas e Simpatizantes de BH, e aconteceram no sábado anterior a Parada Gay, no mês de julho.

V Caminhada Lesbica

Em 2010 (6ª) passou a se chamar Caminhada das Lésbicas, Bissexuais e Simpatizantes de BH, ainda ocorrendo no sábado a tarde anterior a Parada Gay, em julho.

Em 2011 (7º), a Caminhada passou a acontecer no mês de agosto, uma forma de se tornar totalmente independente da Parada Gay e assim fortalecer o mês que dos Orgulho (19/08) e Visibilidade (29/08) Lésbica, tendo ocorrido na tarde de 27 de agosto, passando então a se chamar Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de BH.

Em 2011, com o encerramento das atividades da ALEM, a 11ª Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de BH foi organizada por coletivos feministas, LGBT e mulheres independentes que decidiram, de maneira corajosa, não deixar morrer um ato tão importante.

Em 30 de agosto de 2019, a 15ª Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de BH tomou as ruas de BH.


Segundo, a fúria

O breve resumo histórico feito desses quase 16 anos de luta, coragem, ousadia e negação de ficar nas sombras, que levou para as ruas mulheres que sempre defenderam sua independência para falarem por si, para exigirem e conquistarem respeito e visibilidade teve a intenção de declarar que estamos furiosas.

No “Verão Radical”, acampamento de verão organizado pela GARRa feminista esse mês de Janeiro, entre os dias 17 a 19, tivemos um painel para discutir a importância dos fortalecimento das Caminhadas Lésbicas do Brasil. Da discussão que se seguiu ficou cada dia mais evidente que as mulheres lésbicas não são nada na sociedade, as lésbicas são silenciadas constantemente, acusadas de transfobia, de bifobia e até mesmo de heterofobia por qualquer coisa que digam e não agrade, por todas as vezes que exigem serem ouvidas, vistas, respeitadas, cada vez que uma lésbica impõe um limite, ele é visto como agressivo, violento e fóbico!!!!

Em todo o mundo muitas Caminhadas, que sempre foram referência, estão perdendo sua identidade para agregar pautas que ignoram as vozes das lésbicas, que negam a sexualidade, a identidade política e social dessas mulheres.

Ver a história da Caminhada de BH, mesmo que resumida, deixa evidente a capacidade de mudança, diálogo, reconhecimento da importância de todas as mulheres que desejam somar, foram tantos temas, foram tantas cores, tantas canções, tantos gritos, tantas reuniões e meses dedicados ao Orgulho e a Visibilidade Lésbica, que acusar uma organização horizontal, independente e múltipla de ser perigosa e fóbica, é demonstrar o descaso com a história, o sangue, a vida e a voz das que foram expulsas de casa, mortas, estupradas, espancadas por amarem e decidirem priorizar suas vidas para outras mulheres.

Espaços que deveriam ser seguros, pois dizem ser para mulheres, além de calarem os pensamentos diversos, propõem boicotes a eventos e Caminhadas Lésbicas, enquanto alegam que o “seu protagonismo está na força da mulher sapatona” se negam ao diálogo, se negam a somar, preferem expulsões e ataques, usando da censura para manter o véu da “desconstrução” que não aceita diferenças, preferem marchar outras “caminhadas” a somar com a caminhada lésbica.

Esses locais usam da carência de atividades voltadas exclusivamente para mulheres, se nomeiam intolerantes a qualquer tipo de preconceito, mas impõem uma política de silêncio, perseguição e medo para aquelas que defendem que gênero é opressão, que a sexualidade está relacionada ao sexo e que lésbicas são mulheres que se relacionam afetivo/sexualmente exclusivamente com outras mulheres.

Sapatão se tornou uma palavra da moda, palavra essa que foi por anos um xingamento vulgar usado por aqueles que desejavam desmerecer as relações lésbicas, por isso, para tirar esse poder destruidor dessa palavra, as lésbicas a ressignificaram e a tornaram parte dos seus símbolos, entretanto, agora ela é usada como passe livre para fingir uma inclusão que exclui, virando quase um deboche com aquelas que têm sido colocadas no papel de opressoras apenas por não se submeterem a desonestidade agressiva dos que confundem (ou fingem confundir) gênero com sexo e têm tentado fazer das Caminhadas um palco para suas vaidades e fetiches, seja através de fofocas, ameaças veladas, negativa de diálogo, acusações sem provas ou cartas abertas repletas de rancor e sem nenhuma responsabilidade com as conseqüências dela.

Por isso estamos furiosas, porque nossa história não nos deixa mentir que SEMPRE tivemos como foco a libertação das mulheres, que SEMPRE estivemos abertas ao diálogo, que SEMPRE procuramos evoluir, mas é claro, sem perder a razão que colocou nas ruas a 1ª e a 15ª Caminhadas, que são o Orgulho e a Visibilidade das Mulheres Lésbicas.

Desta forma propomos que as mulheres se organizem, que estudem, que resgatem suas memórias e deixem de sentir culpa por serem quem são, como bem disse Audre Lorde “seu silêncio não o protegerá”, pelo contrário, ele dará a força necessária para que as pautas de ódio nos apaguem, nos torne ainda mais vulneráveis e que a nossa diversidade seja tratada como criminosa.

Há várias coletivas, há vários blogs sérios, há páginas e feministas dispostas a fazer com que a união entre mulheres, enquanto classe, seja uma realidade capaz de fazer a revolução que temos buscado, a revolução que fará com que a opressão do gênero não mais nos acorrente, permitindo com que sejamos livres, sejamos enfim humanizadas, sem que depilação, submissão, violência doméstica, maquiagem, salto alto e feminilidade sejam sinônimo de mulher.

Sejamos as donas dos nossos símbolos, sejamos aliança, união e resgate do amor entre mulheres que tem nos sendo usurpado pela falácia da rivalidade feminina, as Caminhadas Lésbicas são nossos espaços de luta, por isso devemos fortalecê-las, não apenas no dia em que irão sair nas ruas, mas em todos os dias do ano!

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