A luta lésbica é a luta do feminismo!

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A necessidade de se posicionar e afirmar em uma sociedade patriarcal, misógina e falocêntrica é parte da agenda feminista desde que as primeiras mulheres se negaram a cumprir o papel determinado para elas em razão do sexo com o qual nasceram, o feminino.

Para uma lésbica, a necessidade de ser posicionar e afirmar ganha um peso maior, porque além de terem nascido no sexo que é oprimido desde o primeiro choro, elas rompem com o ideal heteronormativo das relações construídas em torno da figura masculina.

As lésbicas vão de encontro com a estrutura que determina que o destino biológico das mulheres é nascer, ser filha, em seguida esposa, mãe e cuidadora, porque as mulheres que amam/desejam outras mulheres não pautam seus afetos de acordo com essa determinação limitadora.

Tanto que a perseguição às lésbicas é documentada desde os primeiros registros históricos, a exemplo das poesias de Safo que foram queimadas pelos monges copistas em 1073 por serem consideradas “obscenas”.

Em 1969, A escritora e teórica Betty Friedan, em um discurso para a National Organization for Women – Organização Nacional para as mulheres (NOW), a qual fundou, chamou as integrantes lésbicas da organização de Lavander Menace – Ameaça Lavanda, afirmando que elas manchavam a reputação do grupo, afastavam outras mulheres e desviavam a atenção de pautas mais importantes na luta pela igualdade.

Com essa situação, as feministas lésbicas decidiram fundar seus próprios grupos, para provar a importância de suas lutas e transformar o constrangimento em orgulho.

Dentre os grupos que nasceram desse rompimento está o que se denominou de Lavander Menace, que em 1970 interrompeu o Second Congress to Unite Women (organizado pelo NOW) apagando as luzes do local, tomando os microfones e distribuindo o manifesto “The Women Identified Women” que é considerado um marco no feminismo radical e o início do feminismo lésbico, ao afirmar, dentre outras coisas, que as lésbicas estavam na vanguarda da luta pela nossa libertação, tendo em vista que sua identificação com outras mulheres desafiava as definições de identidade feminina em termos de parceiros sexuais masculinos.

Em 1975, Adrienne Rich, escreveu

 “Antes que existisse ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lésbicas. Mulheres que amavam outras mulheres, que recusavam o comportamento esperado delas, que recusavam definir-se em relação aos homens. Aquelas mulheres, nossas antepassadas, milhares cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas, caluniadas em escritos religiosos, e mais tarde “científicos”,  retratadas na arte e na literatura como mulheres bizarras, amorais, destrutivas, decadentes. Por um longo tempo as lésbicas foram a personificação do mal feminino.”

Ser lésbica é mais que ser uma mulher que ama/deseja outras mulheres, é também priorizar todas nós e por esta razão ser alvo das mais levianas acusações, das mais cruéis perseguições, porque o instinto de uma mulher lésbica é defender, cuidar, lutar, se orgulhar e levantar as bandeiras de proteção à outras mulheres, essa atitude fere com tudo que o patriarcado espera de nós em sociedade.

Por isso o ataque, a censura, as mentiras e manipulações sempre tentam primeiro derrubar os grupos que priorizam mulheres, que colocam nas ruas Caminhadas Lésbicas e eventos exclusivamente para nós, porque priorizar meninas e mulheres é dizer não ao que o patriarcado impõe, é ir contra uma estrutura que vulgariza, desumaniza, estupra e violenta nossos corpos, pensamentos, desejos, sonhos e conquistas.

O Grupo Lésbico-Feminista foi fundado em São Paulo no ano de 1979, por mulheres que primeiro integraram o Grupo Somos de Afirmação Homossexual, que ao perceberem que as pautas lésbicas eram sempre invisibilizadas diante as pautas gays decidiram se fortalecer em uma coletiva própria. As que restaram desse grupo, que se desfez em meados de 1981, lançaram a cartilha ChanaComChana para arrecadar fundos, tendo sido expulsas do Ferros Bar que proibiu a sua venda, o que culminou no levante que ocorreu em 19/08/1983, data que desde então marca o Dia do Orgulho Lésbico.

O dia 29 de agosto, dia da Visibilidade Lésbica, foi proposto em 1996, no SENALE (hoje SENALESBI), com a intenção de registrar a existência lésbica, como também a necessidade de que o debate de lésbicas para lésbicas, da mesma forma a voz das lésbicas na sociedade civil fosse pontuada como fundamental para que mulheres desde sempre marginalizadas não fossem apagadas da história.

Por isso a GARRa FEMINISTA, fundada em Belo Horizonte, no ano de 2014, desde o seu nascimento tem como um dos seus principais objetivos não deixar que o Orgulho e a Visibilidade Lésbica sejam tratadas como pautas menores, uma vez que como Feministas Radicais o nosso foco é também a proteção, cuidado, segurança e educação das mulheres, para que possam entender sua importância na sociedade, tanto coletiva quanto individualmente.

Apesar de todos os ataques sofridos ao longo de 5 anos de estrada, é com força, determinação e desejo de libertar todas das opressões sofridas, que a GARRa, junto a outros coletivos, colocará nas ruas a 15ª Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de Belo Horizonte, no dia 30/08/2019, porque sabemos que não há nada mais forte que uma mulher livre para amar, caminhar, falar, se posicionar e lutar.