A criação do patriarcado (parte) – Gerda Lerner

Original: Gerda Lerner – The Creation of Patriarchy

Arquivo em PDF: A criação do patriarcado – Gerda Lener (1)

Capítulo 11 – A criação do patriarcado.

O patriarcado é uma criação histórica formada por homens e mulheres em um processo que durou cerca de 2500 anos para ser completado. Na sua forma inicial o patriarcado apareceu como um estado arcaico. A unidade básica de organização foi a família patriarcal, que expressaram e geram constantemente suas regras e valores. Nós vimos como definições integrais de gênero afetaram a formação do estado. Vamos revisar brevemente como o gênero foi criado, definido e estabelecido.

O papel e comportamento considerado apropriado para os sexos foram expressados em valores, costumes, leis e papéis sociais. Eles além disso, e muito importante, foram expressados em metáforas, que se tornaram parte da construção cultural e do sistema explicativo.

A sexualidade da mulher, consistindo de sua capacidades sexuais, reprodutivas e seus serviços foi transformado em mercadoria antes mesmo na criação da civilização ocidental. O desenvolvimento da agricultura no período neolítico abrigou a “ troca de mulheres” entre tribos, não apenas para evitar o incessante estado de guerra através da aliança por casamentos, mas também pois uma sociedade com mais mulheres poderia produzir mais crianças. Em contraste com a necessidade econômica das sociedades caçadoras/coletoras, a agricultura poderia usar o trabalho de crianças para aumentar a produção e acumular excedentes. Homens-como-um-grupo tinham direitos sobre as mulheres como mulheres-como-um-grupo não tinham direitos sobre os homens. As mulheres em si se tornaram um recurso, adquiridos por homens tanto quanto a terra era adquirida por homens. Mulheres foram trocadas ou compradas em casamentos para o benefícios de suas famílias; mais tarde elas foram conquistadas ou compradas na escravidão, onde seus serviços sexuais eram parte do seus trabalhos e onde suas crianças eram propriedades do seu mestre. Em toda sociedade conhecida foram as mulheres de tribos conquistadas as primeiras a serem escravizadas, onde os homens eram mortos. Foi apenas depois dos homens terem aprendido como escravizar de grupos que poderia ser definidas como estranhas, que eles aprenderam como escravizar homens desses grupos e , após, subordinar de suas próprias sociedades.

Portando, a escravização das mulheres, combinando ambos racismo e machismo, precedeu a formação da classe e das opressões de classes. As diferenças de classes foram no seu início expressada e construída em termos de relações patriarcais. Classe não é uma construção separado do gênero, em vez disso, classe é expressada em termos de gênero.

No segundo milênio antes de cristo nas sociedades mesopotâmicas, as filhas dos pobres eram vendidas para o casamento ou para a prostituição para satisfazer o interesse econômico de suas famílias. As filhas dos homens que possuíam propriedades poderiam pedir um preço pela noiva, pago pelo família do noivo para a família da noiva, o que frequentemente assegurava para a família da noiva mais vantagens para os casamentos dos filhos, melhorando a posição econômica da família. Se um marido ou pai não pudesse pagar a sua dívida, sua esposa e crianças poderiam ser usadas como peões , se tornando escravos por dívidas de seus credores. Essas condições eram tão firmemente estabelecidas no ano de 1750 A.C. que o código de Hamurábi faz uma melhora decisiva no lote de peões devedores, limitando os termos de serviços por três anos, quando anteriormente era para a vida toda.

O produto dessa transformação da mulher em mercadoria – preço da noiva, preço de venda, e crianças – foi apropriado pelos homens. Pode perfeitamente representar a primeira acumulação de propriedade privada. A escravização da mulheres conquistadas de tribos não apenas se tornou símbolo de status para nobres e guerreiros, mas certamente habilitou os conquistadores de adquirir riquezas através de venda ou troca de produtos das escravas de trabalho e seus produtos reprodutivos, as crianças escravizadas.

Claude Lévi-Strauss de quem nós tiramos o conceito de “a troca de mulheres”, fala da reificação da mulher, que ocorreu como consequência. Mas não foram as mulheres que foram reificadas e transformadas em mercadoria, foi a sexualidade da mulher e sua capacidade reprodutiva. A distinção é importante. Mulheres nunca se tornaram uma ‘coisa’ nem assim foram percebidas. Mulheres , não importam o quão exploradas e abusadas, retiveram seu poder de agir e de escolher da mesma forma, e frequentemente numa extensão muito limitadas, como homens de seus grupos.

Mas as mulheres sempre e até hoje vivem em um relativo estado de não-liberdade que vivem os homens. Desde de que sua sexualidade, um aspecto dos seus corpos, foi controlado por outros, mulheres não apenas estavam em desvantagens mas psicologicamente restringidas e suas maneiras especiais. Para mulheres e para homens de grupos subordinados e oprimidos , a história consiste em suas lutas por emancipação e liberdade por necessidade. Mas as mulheres lutaram contra diferentes formas de opressão e dominância que os homens, e as lutas delas, até os dias de hoje, ficou atrás das lutas dos homens.

O primeiro papel de gênero social para as mulheres foi o de ser trocada em transações de casamento. O papel observado para homens foi de ser os que fazem as transações ou os que definem os termos da troca.

Outro papel de gênero definido para as mulheres foi o de esposa “dona de casa”, que foi estabelecido e institucionalizado para mulheres de grupos da elite. Esse papel deu para essas mulheres poder e privilégios consideráveis, mas depende de sua ligação com os homens da elite e é baseado minimamente nas performances satisfatórias na prestação de serviços para esses homens nos serviços reprodutivos e sexuais. Se uma mulher falha nessas demandas, ela é trocada rapidamente e consequentemente perde todas os seus privilégios e status.

O papel de gênero de guerreiros levou os homens a adquirir poder sobre homens e mulheres de tribos conquistadas. Tais conquistas induzidas por guerras normalmente ocorriam entre pessoas diferentes dos vitoriosos seja por raça, etnia ou simplesmente diferenças tribais. Numa análise final da origem, ‘diferença’ como uma marca entre conquistados e conquistadores foi baseado na primeira diferença observada, sendo a diferença entre sexos. Homens aprenderam como impor e exercitar o poder sobre pessoas minimamente diferentes deles mesmo nas primeiras trocas de mulheres. E fazendo isso, homens adquiram o conhecimento necessário para elevar as “diferenças” de qualquer tipo de critério para dominância.

Desde o início da escravidão, a dominância de classe tomou formas diferentes entre homens e mulheres: homens eram primariamente explorados como trabalhadores, mulheres foram sempre exploradas como trabalhadoras, como provedoras de serviços sexuais e como reprodutoras. Os registros históricos de todas as sociedades escravizadas oferece evidência para essa generalização. A exploração sexual das mulheres de classes mais baixas por homens das classes mais altas pode ser mostradas na antiguidades, no feudalismo, nas casas burguesas dos séculos XIX e XX na Europa, na complexa relação entre sexo e raça entre mulheres de países colonizados e os homens colonizadores. Para mulheres, a exploração sexual é a própria marca de sua exploração de classe.

A qualquer momento da história, cada ‘classe’ é constituída de duas classes distintas – homem e mulher.

A posição de classe da mulher se tornou consolidada e atualizada através de suas relações sexuais. Elas sempre foram expressadas dentro de graus de não-liberdade dentro de um espectro que de um lado é a mulher escravizada, na qual a capacidade reprodutiva e sexual foi transformada em mercadoria assim como ela; passando pela escrava-concubina , que a performance sexual pode elevar seu status ou de suas crianças; e então para a esposa “livre”, em que os serviços sexuais e reprodutivos para um homem da elite a garantem direitos legais e de propriedade. Enquanto cada um desses grupos tem obrigações e privilégios bem diferentes em relação à propriedade, lei e recursos econômicos, eles dividem a não-liberdade de serem controlados pelos homens reprodutivamente e sexualmente. Nós podemos expressar da melhor maneiras a complexidade dos variados níveis da dependência e da liberdade das mulheres comparando cada mulher com seu irmão e considerando como as oportunidades e a vida da irmã e do irmão serão diferentes.

A classe para os homens foi e é baseada no seus relacionamentos com os meios de produção: aqueles que detém os meios de produção poderiam dominar aqueles que não detinham. Os donos dos meios de produção também adquiriram as mercadorias dos serviços sexuais femininos, tanto das mulheres de sua própria classe como das classes subordinadas. Na antiga mesopotâmia, na antiguidade clássica, e em sociedades escravizadas, homens dominantes também adquiriram, como propriedade, o produto da capacidade reprodutiva de mulheres subordinadas – as crianças, para serem trabalhadoras, trocadas, casadas, ou vendidas como escravas, como convinha o caso. Para mulheres a classe é mediada pelo seus laços sexuais com um homem. É através dos comportamentos sexuais que elas ganha acesso a classe. “Mulheres respeitáveis” ganham acesso para a classe através dos seus pais e maridos, mas quebrar as regras sexuais podem às tirar desta classe. A definição sexual de “desviada” marca uma mulher como “não respeitável”, que de fato a coloca na mais baixa classe possível. Mulheres que recusam serviços sexuais (como mulheres solteiras, freiras, lésbicas) estão conectadas com os homens dominantes pela suas famílias de origem e através deles ganham acessos a recursos. Ou, em alternativa, elas são rebaixadas. Em alguns períodos históricos, conventos e outros locais para mulheres solteiras criaram locais protegidos nos quais tais mulheres poderiam funcionar e reter sua respeitabilidade. Mas a vasta maioria das mulheres solteiras são por definição, marginais e dependentes da proteção dos parentes masculinos. Isso é verdade através da história até meados do século XX no mundo ocidental e ainda é a realidade na maior parte dos países subdesenvolvidos hoje. O grupo de mulheres independentes, e auto sustentável que existe em todas as sociedades é pequeno e altamente vulnerável ao desastre econômico.

Opressão econômica e exploração são baseadas na mercantilização da sexualidade feminina e na apropriação por homens do poder de trabalho das mulheres e do poder reprodutivo delas, assim como a sua direta aquisição de recursos e pessoas.

O arcaico estado do Antigo Oriente emergiu no segundo milênio A.C. das raízes da dominância sexual masculina sobre as mulheres e da exploração de alguns homens sobre outros. No seu começo, o estado arcaico foi organizado de tal maneira que a dependência do chefe de família ao rei ou à burocracia do estado foi compensada pela sua dominância nas famílias. O chefe da família aloca os recursos da sociedade para a suas famílias da mesma maneira que o estado alicia os recursos da sociedade para eles. O controle do homem chefe da família sobre os parentes femininos e filhos menores era tão importante para a existência do estado assim como o controle do rei sobre os seus soldados. Isso é refletido nas várias compilações das leis mesopotâmicas, especialmente no grande número de leis lidando com a regulamentação da sexualidade feminina.

A partir do segundo milênio A.C. em diante o controle sobre o comportamento sexual dos cidadãos tem tido um grande significado de controle social em todos os estados da sociedade. De modo inverso, a hierarquia de classe é constantemente reconstituída dentro da família através de dominância sexual. Independente do sistema político ou econômico o tipo de personalidade que pode funcionar em um sistema hierarquizado é criado e cuidado dentro de uma família patriarcal.

A família patriarcal tem sido incrivelmente resiliente e variada em diferentes tempos e locais. O patriarcado oriental incorporou a poligamia e manteve as mulheres presas em harems. Patriarcado na antiguidade clássica e no desenvolvimento da Europa foi baseado na monogamia, nas suas formas de duplo padrão sexual, que não é vantajoso para as mulheres, é parte do sistema. No estado industrial moderno, como os Estados Unidos, as relações de propriedades dentro da família desenvolveram linhas mais de igualdade do que as que o pai possui poder absoluto, mas nas relações econômicas e sexuais dentro da família não mudaram necessariamente. Em alguns casos, relações sexuais são mais iguais, enquanto as relações econômicas mantém-se patriarcais; em outros casos o padrão se reverte. Em todos os casos, no entanto, tais mudanças dentro da família não altera a dominação masculina no ambiente público, nas instituições e no governo.

A família não apenas reflete a ordem do estado e educa as crianças a seguir ele, mas também cria e constantemente reforça essa ordem.

Deveria ser notado que quando falamos em melhoras no status da mulher dentro da sociedade, ela frequentemente significa apenas que estamos vendo melhoras em algum grau onde a situação oferece oportunidade de exercer alguma influência dentro do sistema do patriarcado. Quando mulheres têm relativamente mais poder econômico elas têm algum tipo de controle sobre suas vidas que em sociedades onde não tem poder econômico nenhum. Similarmente a existência de grupos de mulheres, associações, ou redes de serviços econômicos servem para aumentar a habilidade das mulheres de agir contra a ditadura patriarcal que age particularmente. Alguns antropologistas e historiadores chamou essa melhora relativa de “liberdade”. Essa designação é uma ilusão e injustificável. Reformas e mudanças legais, enquanto amenizam a condição da mulheres e é necessário para a o processo de emancipação, não irá mudar o patriarcado em sua base. Tais reformas precisam ser integrada dentro de uma revolução cultural vasta na condição de transformar o patriarcado e então abolir ele.

O sistema patriarcal funciona apenas com o cooperação das mulheres. Essa cooperação é assegurada de maneiras diversas: doutrinação de gênero; privação de educação; a negação às mulheres sobre sua história; divisão das mulheres, uma das outras, pela definição de “respeitáveis” e “degeneradas” de acordo com a atividade sexual das mulheres; por restrições e coerção completa; por dicromiação no acesso de recursos econômicos e de poder político; e por garantir privilégios de classe à mulheres que conformam com as regras.

Por quase quatro mil anos mulheres têm moldado suas vidas e agido debaixo do guarda-chuva do patriarcado, especificamente na forma melhor descrita do patriarcado como a dominância paternalista. O termo descreve uma relação de um grupo dominante, em que a dominância é mitigada por obrigações mútuas e direitos recíprocos. O dominado troca sua submissão por proteção, trabalho não remunerado por subsistência. Na família patriarcal, responsabilidades e obrigações não são igualmente distribuídas entre os que são para ser protegidos: os filhos homens são temporariamente subordinados à dominância do pai; ela dura até quando eles se tornam chefes de famílias. A subordinação das filhas e esposas dura a vida toda. Filhas podem escapar se apenas elas se colocarem enquanto esposas sob a dominância/proteção de outro homem. A base do paternalismo é um contrato não escrito de troca: suporte econômico e proteção dada por um homem, em troca de subordinação em todos os aspectos, serviços sexuais, e serviços domésticos não remunerados dados pelas mulheres. Ainda sim o relacionamento frequentemente continua de fato e na lei, até quando o homem não cumpre a sua parte da obrigação.

Foi uma escolha racional para as mulheres, em condições de falta de poder e dependência econômica, escolher protetores fortes para elas e suas crianças. Mulheres sempre dividiram os privilégios de classe dos homens de sua classe enquanto elas estiverem sob “proteção deles” . Para mulheres, outras além das de classes mais baixas, o “acordo recíproco” ocorria dessa maneira: em troca de sua subordinação sexual, econômica, política e intelectual aos homens, vocês podem dividir o poder dos homens de sua classe em explorar homens e mulheres de classes mais baixas.

Na sociedade de classes é difícil para pessoas que tenham algum poder, mesmo que limitado e restrito à algo, possam se ver como também privadas e subordinadas. Privilégios de raça e classe servem para rebaixar a habilidade da mulher de ver elas mesmas como parte de um grupo coerente, já que as mulheres diferente de todos os outros grupos oprimidos, ocorrem em todos os estratos da sociedade. A formação do grupo de mulheres conscientes têm de proceder através de diferentes linhas. Esta é a razão porque formulações teórica, que foram apropriadas por outros grupos oprimidos, são tão inadequadas em explicar e conceitualizar a subordinação das mulheres.

Mulheres por milênios participaram do processo de sua própria subordinação porque elas foram moldadas psicologicamente para internalizar a ideia de sua própria inferioridade. A falta de conhecimento da própria história de luta e sucesso tem sido um dos maiores meios de manter as mulheres subordinadas.

A conexão da mulher com a estrutura familiar fez com que qualquer desenvolvimento de solidariedade feminina e grupos coesos fossem extremamente problemáticos. Cada mulher individualmente está ligada ao seu parente masculino na sua família de origem através de laços que implicam obrigações específicas. A sua doutrinação, desde criança, enfatizam a sua obrigação não apenas na contribuição econômica para os parentes e para o ambiente familiar mas também para aceitar o parceiro a partir do interesse da família. Outra maneira de dizer é que o controle sexual das mulheres está ligado à proteção paternalista e que, em vários estágios da vida dela, ela muda de de protetores masculinos, mas nunca cresce o estado de infantilização de ser subordinada e de estar sobre tutela.

Outras classes oprimidas e grupos foram impelidos para a consciência de classe pela sua própria condição de seu status de subordinação. Escravos podiam claramente marca uma linha entre os interesses e laços com suas famílias e laços de subserviência/proteção com o mestre. De fato, proteção dos escravos parentes de sua própria família contra os mestres foi uma das mais importantes causas das revoltas de escravos. Mulheres “livres” por outro lado, aprenderam cedo que seus parentes lhe abandonariam caso elas se rebelassem contra sua dominação. Em sociedades tradicionais e camponesas há vários registros de mulheres da família que toleraram e até participaram de castração, tortura e até morte de meninas que transgrediram a “honra” da família. Nos tempos bíblicos a comunidade inteira se juntava para matar à pedradas as adúlteras. Práticas similares permaneceram na Sicília, Gŕecia e Albânia até no século 20. Em Bangladesh Pais e maridos expulsam suas filhas e mulheres que foram estupradas por soldados invasores, mandando elas para a prostituição. Assim, mulheres, são frequentemente forçadas a fugir de um “protetor” para outro, sua “liberdade” frequentemente definida apenas por sua habilidade de manipulação entre esses protetores.

O maior indicativo de impedimento para o desenvolvimento de consciência de classe para as mulheres foi a ausência de tradição que reafirmariam a sua independência e autonomia e qualquer período. Nunca houve nenhuma mulher ou grupo de mulheres que vivem sem a proteção masculina, até onde a maioria das mulheres sabiam. Nunca houve nenhum grupo de pessoas como elas que tivessem feito qualquer coisa significativa para elas. Mulheres não tem história- é o que disseram; então elas acreditaram. Assim, finalmente, foi a hegemonia masculina sobre o sistema simbólico que mais decisivamente deixou as mulheres menos favorecidas.

 

 

 

Marcha das Vadias: ato feminista ou carnaval queer?

À frente da Marcha, bandeira LGBT nas mãos de um homem. Não se vê, na imagem, bandeira feminista. Créditos da foto: Carla DC

A Marcha das Vadias é um movimento liberal, que defende sistemas de exploração do sexo feminino – como a prostituição e a pornografia – como trabalhos comuns ou até mesmo formas de “empoderamento”, sem um questionamento profundo da dominação dos homens sobre as mulheres na sociedade. Apesar deste caráter, a Macha ainda é uma manifestação que se propõe feminista e contra violências masculinas como assédio e estupro.

Em 2015, a Marcha teve o mesmo tema em todo o Brasil: a legalização do aborto, necessária para preservar a vida das mulheres brasileiras que abortam de maneira clandestina e acabam muitas vezes mortas, encarceradas ou traumatizadas. No entanto, um movimento que se fundamenta em argumentos do liberalismo político, como a Marcha das Vadias, e entende o feminismo não como o Movimento de Libertação da classe das Mulheres, mas como “direito a escolha” (individual) ou “empoderamento” (também individual), não consegue construir um discurso sobre aborto que caminhe para a nossa libertação. Para isso, seria necessário discutir maternidade forçada como trabalho forçado feminino e aborto num contexto maior de direitos reprodutivos necessários para libertação da classe reprodutiva, as mulheres, da dominação masculina que se realiza através de diversos mecanismos, sendo a proibição do aborto apenas um deles, junto com outros mecanismos de controle reprodutivo como a proibição ou restrição do acesso a contraceptivos (países como a Tailândia proíbem, enquanto países como os EUA restringem ao permitir que empresas contratem seguros-saúde que não cobrem contraceptivos, de acordo com a religião do empregador), a gravidez forçada, o aborto forçado, bem como outras violências e explorações, como trabalho doméstico não pago e compulsório, estupro, espancamento, violência psicológica e emocional, assédio sexual, prostituição, pornografia, e tantas outras.

Sabendo disto, a GARRa Feminista se propôs a panfletar uma perspectiva de esquerda, revolucionária, radical sobre o aborto durante a concentração da Marcha das Vadias de Belo Horizonte no dia 20 de junho. Alguns acontecimentos nos chamaram a atenção durante o tempo em que panfletamos.

Carnaval queer

Como sempre, a Marcha tinha muitos, muitos homens presentes, muitos homens heterossexuais com suas companheiras, mas o que nos chamou a atenção, a princípio, foi a protagonização masculina nas danças e no batuque – que trazia marchinhas de carnaval (!), muitas vezes lesbofóbicas, no lugar de palavras de ordem feministas. Não havia nenhuma bandeira feminista, e a bandeira LGBT era o que roubava a cena, carregada com afinco por um homem de top e saia, com, o que nos pasmou, tinta vermelha entre as pernas. Na mesma marcha em que o cartaz ‘Homens também abortam’ apareceu, um homem gay rebolava até o chão com as marchinhas de carnaval tocando, fantasiado do que só podemos descrever, com muito desgosto, como ‘mulher e aborto clandestino’. Muito além da já misógina prática de usar da estética da nossa opressão (a feminilidade) como fantasia – o drag – este homem achou divertido se fantasiar de mulher morrendo. Um ato feminista pela legalização do aborto e pela vida das mulheres virou uma festinha à fantasia para os homens gays que celebravam “ser vadia”.

Homens não abortam. A proibição do aborto é uma opressão reservada a quem tem útero e vagina, que fazem parte da classe capaz de reproduzir e para a qual os direitos humanos mais básicos são negados: as mulheres. Considerar que homens abortam não significa apenas roubar nosso protagonismo no movimento feminista, mas também negar a opressão que sofremos enquanto mulheres – que tem base material, na exploração dos nossos corpos, dos nossos úteros. Somos forçadas a prosseguir com a gestação, abandonadas pelos pais de nossos filhos, levadas a fazer abortos clandestinos que culminam em sangramentos e hemorragias que podem levar à morte. E mesmo mulheres que não abortam sofrem violência: mulheres cujas tentativas de aborto falharam, mulheres forçadas pelos parceiros a manter a gravidez ou mesmo mulheres coagidas pela ideologia patriarcal, da religião ou da moral patriarcais, a enxergar como errado, como pecado ou imoral interromper uma gestação, correm risco de sofrer violência obstétrica durante o pré-natal e o parto. A maioria dessas questões não foram levantadas na Marcha, que parecia muito mais preparação para uma festa do que um protesto.

O sangue entre as pernas daquele rapaz é um deboche da condição feminina de segundo sexo, da negação de direitos e da invisibilidade de nossas demandas feministas. Falar de aborto é falar de mulher, e um homem carregando o sangue de um aborto entre as pernas é um desserviço político e um desrespeito a todas as mulheres e à causa feminista.

Marcha

Marcha

Mulheres invisíveis

Enquanto panfletávamos, presenciamos uma cena muito forte, bem ao lado de onde estavam as pessoas dançando ao som do batuque da Marcha, uma mulher, aparentemente moradora de rua, era empurrada contra uma árvore por um homem, também morador de rua. Ele a beijava a força, a tocava, enquanto ela tentava se desvencilhar, chorando muito. Tentamos intervir e o homem se tornou agressivo. Conseguimos afastar o homem dela, que foi se deitar longe dali. Foi apenas nessa hora que algumas companheiras se solidarizaram e ajudaram a afastar o homem, que ao perceber que éramos lésbicas, começou a querer nos agarrar e beijar. Ainda assim, se solidarizaram conosco (elas não estavam perto quando o homem assediava a moradora de rua), ao passo que as outras pessoas, que estavam perto quando o assédio ocorria, seguiam dançando as marchinhas e não vendo o que estava acontecendo. Conversamos um pouco com a mulher, que contou alguns detalhes de sua vida e vimos ali que ela estava numa situação extremamente vulnerável, sendo agredida por um homem que tinha conhecido no dia anterior, simplesmente por ter ido dançar junto das outras mulheres que faziam parte da Marcha das Vadias.

Depois de sermos forçadas a nos afastar com as ameaças do homem em questão, tentamos ficar de olho de longe no que acontecia. Enquanto isso, a Marcha seguiu seu caminho. Vimos essa mulher deitada, enquanto o homem a chutava e a balançava, fazendo carinho depois. Eram duas pessoas em situação de rua, extremamente vulneráveis, ambas negras, mas havia claramente ali a opressão masculina sobre aquela mulher.

Quando a Marcha das Vadias surgiu, era sobre o direito da mulher de vestir-se ou portar-se como quiser sem ser culpabilizada caso sofresse violência física, sexual, verbal ou psicológica. Achamos bastante sintomático que, ao lado do batuque dessa Marcha, uma mulher tenha sido agredida e que nada tenha sido feito. A fala desta mulher para o homem que a agrediu foi de quem tentava se justificar: “eu só estava dançando”. A Marcha das Vadias, apesar de defender os direitos dela na teoria, não a protegeu na prática.

Criticamos a falta de atenção e cuidado da organização da Marcha das Vadias de Belo Horizonte. Todo ano presenciamos situações de agressão misógina durante a realização deste evento, e desta vez não houve sequer envolvimento da organização do mesmo. Ficou claro que a Marcha não é um ambiente seguro para mulheres, que elas não estão protegidas, mesmo entre inúmeras feministas e homens que dizem apoiar o feminismo. Faltou olhar para o lado e se preocupar com as outras mulheres, faltou o entendimento de que o feminismo é uma luta coletiva, por todas as mulheres, inclusive as que moram na rua. Faltou uma crítica ao individualismo incorporada nas práticas de quem constrói aquele evento – tanto organização quanto público.

Faixagb

Contra críticas, hostilidade

Presenciamos, também, uma mulher negra discutindo com uma das organizadoras da Marcha, branca, e ambas gritavam. Poucas pessoas pararam para tentar mediar a situação ou dialogar, mas percebemos ali que a companheira negra ressaltava o caráter racista e elitista da Marcha das Vadias. São questionamentos frequentemente levantados nos meios feministas: como a Marcha das Vadias é um movimento majoritariamente branco e classe média, com um discurso de apropriação e ressignificação de ofensas misóginas que não serve às mulheres em geral, mas principalmente às negras e pobres, grupos em situação social mais vulnerável. Em pouco tempo já ouvimos gritos de “cala a sua boca” de parte da mulher branca, tentando agressivamente silenciar as críticas. Essa mesma mulher disse à companheira negra que ela não precisava acompanhar a marcha, que se estava insatisfeita poderia retirar-se.

Esta é uma postura comum de feministas liberais (e fazemos essa análise de que era uma feminista liberal por que estava hostilizando uma mulher para defender um movimento feminista liberal, que é a Marcha das Vadias, de críticas) quando questionadas sobre seus métodos políticos e sobre sua ideologia e como os mesmos se relacionam com a população de mulheres negras e pobres. Vimos ali que as críticas dessas mulheres não eram bem-vindas, e mais que isso, que eram tratadas como ações contrárias ao movimento e, em vez de consideradas, eram rebatidas com hostilidade. Esta é a mesma hostilidade que nós, feministas radicais, especialmente dentre nós as que são negras ou lésbicas, recebemos ao criticar individualismo e liberalismo no movimento feminista, e nesse sentido, nos solidarizamos com a companheira.

Por fim, queremos deixar claro que, para nós, a “libertação sexual” proposta pela Marcha das Vadias não é libertação de modo algum, é apenas mais uma forma de dominação masculina sobre as mulheres e que não acreditamos na ressignificação da palavra “vadia” e seus sinônimos como método efetivo para a libertação das mulheres. Lutamos por um mundo em que as mulheres possam se relacionar livremente, porém com auto-estima, segurança e um real poder sobre seus corpos e mentes, sem, nunca, jamais, serem chamadas – ou sentirem-se – vadias.

GARRa Feminista.